Retorno

Agora que a vida está mais em ordem, e – quem diria – o ano está acabando com algumas perspectivas positivas, já há espaço e tempo para voltar e escrever.

Vou tratar rapidamente de alguns tópicos que considero importantes de maneira breve e objetiva, e nos dias seguintes, vou desenvolvendo tema a tema.

1. Sobre este blog.
Agora que pretendo retomar, sempre vale reforçar: Eu não sou da Igreja Universal do Reino do Pedal. Não sou pela catequese. Não acho que a bicicleta é o destino da humanidade ou obrigação de qualquer pessoa. Não acho que é a melhor solução para todos os seres humanos. O blog existe para mostrar que é possível andar de bicicleta, divulgar o uso correto da bicicleta e suas polêmicas e nuances, disctuir trânsito e mobilidade urbana, e ao fim, servir como um relato da minha experiência e perspectiva pessoal. Não acho que você ou qualquer outro leitor tenha que necessariamente fazer o que eu faço. Se, no entanto, decidir pedalar em Salvador, é provável que eu me disponha a ajudar no que estiver ao meu alcance. Também não odeio carros ou motoristas. Apenas quero propagar a informação e o respeito aos direitos dos ciclistas – e por tabela, dos pedestres.

2. Bicicletas do Itaú.
Estou surpreso. Com muitas coisas. Supreso de não ter ouvido falar de nenhum acidente sério com nenhuma bicicleta – uma vez que a maioria dos laranjinhas que eu vi circulavam como se estivessem no fantástico mundo sem lei. Surpreso de ver tanta gente que nunca vi manifestar nenhum interesse por pedalar usando as bicicletas com frequência. Viva o hype. O impacto foi muito maior do que eu esperava. Mas claro, é pouco. É pouquíssimo. Quero muito mais. Mas é um bom começo. Que bom que eu queimei a língua, aparentemente. Diz Netinho que até o fim do mandato teremos 90 Km de ciclovia/ciclofaixa. Oremos.

3. Mudanças recentes no trânsito de Salvador.
Está claro para mim que a equipe de José Carlos Aleluia e Antônio Carlos Magalhães Netinho não acreditam em estudos, em planejamento, em metas, cálculo de impactos e resultados. É divertido que o executivo se comporte dessa forma porque quando você vai participar de um edital, assumir uma licitação, ou tratar do dinheiro público que vem da prefeitura ou do Estado, você tem que saber quantos centímetros de fita isolante vai precisar com pelo menos 10 meses de antecedência, e tem que guardar recibo de tudo, saber quanto tudo vai custar, e fazer com que custe aquilo que você disse que custaria. Depois esperar o dinheiro sair super atrasado e eventualmente cortado. Legal. Mas quando são eles, é assim: cria uma faixa solidária na orla e vê o que acontece! Gasta uns milhões aplicando botox na orla da Barra sem audiência pública! Desfaz a faixa solidária! Faz a faixa exclusiva de ônibus! Topa o acordo das bicicletas, entope bicicleta! Desfaz a faixa exclusiva. Inverte a Rua Chile! Inverte o trânsito na Paulo VI! E assim por diante. Será que o trânsito da Av. Paulo VI também vai ‘desinverter’? Pesquisa de origem-destino serve para isso. Para levantar um monte de dados e fazer mudanças pertinentes com os dados coletados. Planejamento de ação serve para você saber como as coisas vão ser quando você aplicar a mudança. Porque é cristalinamente óbvio que o trânsito vai ficar confuso no momento imediato após a mudança, e que a Av. ACM vai engarrafar MAIS, no começo, com a faixa exclusiva de ônibus. Tem que dar tempo para as pessoas se acostumarem, assimilarem, e mudarem a sua vida. Deixar de sair de casa de carro e passar a usar ônibus é uma mudança de vida brutal para grande parte dos soteropolitanos. É tipo deixar de comer açúcar. Cortar o queijo. Já pensou? É uma mudança difícil. Eles têm que ser convencidos de que é realmente necessário. Desfazer a via exclusiva porque o trânsito piorou sem deixar nem 3 meses de mudança é ingenuidade ou incompetência?

4. Mortes violentas no trânsito e o perigo de viver.
Eu atraio o debate trânsito, porque eu falo disso sempre. E porque o trânsito se conecta a tudo. Tudo. Da eficiência do transporte de ambulância do Hospital Aliança à qualidade dos discos gravados no estúdio de Tadeu Mascarenhas, o trânsito está lá, influindo. Recentemente o discurso do medo tem batido forte. FORTE. Tenho sentido os motoristas um pouco mais irritados na rua – talvez seja só o Natal se aproximando – e houve uma série de mortes violentas famosas. Que são só a janelinha em destaque das mortes violentas diárias causadas por imprudência, incompetência ou imbecilidade. Hoje mesmo vai morrer provavelmente uma família inteira. É assim o tempo todo. A médica derrubou o casal da moto, a menina tirou foto do velocímetro a 170 Km/h, o ator de Hollywood se espatifou na estrada. Quando esses assuntos surgem, surge o assunto da prudência, do risco, do perigo, e três cervejas depois, a gente acaba chegando no perigo que é andar de bicicleta. Como hoje serei breve vou só escrever o seguinte: Sim. É um perigo estar na rua de bicicleta exposto aos motoristas. Assim como é um perigo sair à pé. E é também um perigo sair por aí de carro. De táxi. De ônibus. O Elevador Lacerda é um perigo. É um perigo ir de noite ao Nordeste de Amaralina. E ficar de bobeira em feriados na Graça. Salvador tem muitos homicídios. É tudo um grande perigo.

Pronto.

Porém, eu não vou viver com medo. Ponto. Eu vou ter medo em mil ocasiões. Mas eu não vou deixar o medo orientar a minha vida. Eu vou pra rua. E um dia eu vou morrer. Vou morrer indo pra rua. Pode ser num escorregão idiota de domingo, pode ser num assalto, num acidente de trânsito, numa insuficiência cardíaca aos 114 anos. Mas até lá, eu vou viver. Vida com cautela e prudência (é um saco atravessar a rua do meu lado porque eu fico esperando uma oportunidade mais segura). Mas sem o pavor cotidiano do que pode vir a acontecer a qualquer momento em qualquer lugar. Me recuso. E não vou embora de Salvador.

5. Dúvida importante
A velocidade máxima permitida em rodovias, neste país, é 110 Km/h como orientação geral do nosso Código. Em alguns casos, se assim estiver sinalizado, pode ser um pouco maior, mas nunca ouvi falar de nada que ultrapasse os 130 Km/h. E 130 eu só ouvi falar, nem sei se ainda se usa. Isto posto eu tenho uma dúvida para Dilma Roussef. Dilma, você e Luiz aprenderam que estimular a venda de automóveis aquece a economia e minimiza efeito de qualquer crise no Brasil. E nesse governo temos como nunca na história desse país, trabalhadores comprando carro. Quase eu compro o meu (brincadeira). A tecnologia que limita velocidade máxima já existe. A tecnologia que alerta o motorista que ele está a mais de 80 Km/h já é bastante usada. Porque diabos é possivel que um carro “de passeio” chegue a 200 Km/h? Porque não existe um diacho de uma determinação legal que torne obrigatório um dispositivo de segurança que interrompa a injeção de gasolina no caso de ultrapassar os 120 Km/h, que seja?! Outras pessoas podem me ajudar a entender porque isso é fisicamente possível, e porque – desde que a tecnologia existe – ela não é obrigatória. O álcool em gel não foi adotado como medida de segurança? A panela de pressão que não explode não é o único modelo que pode ser fabricado? A cabeça do boneco do LEGO não é furada pra não deixar as crianças se asfixiarem? E porque diabos um automóvel com um dispositivo “colocar a minha vida e a de outros em risco” é amplamente distribuído? Porque isso é possível?!

6. Agora é permitido aos shoppings cobrar estacionamento.
Agora que João Henrique não se elege nunca mais. A bandeira principal dele caiu! É um serviço. Não é público. Acho justo. E acho BOM porque é um desestímulo ao uso de carro. Um incômodo a mais para forçar o cidadão que só raciocina carro particular a raciocinar um pouco mais ônibus. É ônibus – e não bicicleta, e muito menos viaduto ou metrô – ÔNIBUS que vai tornar nossa cidade mais viável. Se os shoppings realmente começarem a cobrar, é mais um empurrãozinho na direção certa. Precisamos de mais gente pensando em ônibus.

7. Miscelânea
Fiquei achando os motoristas irritados porque só hoje fui ameaçado por dois motoristas nervosinhos. Outra coisa interessante que aconteceu é que na minha ida para o centro ultrapassei um carro modelo esportivo amarelo, preso no engarrafamento. Perdão, nunca vou saber o nome desse carro. Parecia um carro de filme ou vídeo-game. O dono era barrigudo. Por isso eu sei que era um carro esportivo muito caro. Fiz o que eu tinha que fazer no Centro e na volta, quem também estava voltando, preso no engarrafamento? O mesmo carro esportivo amarelo. Ultrapassei ele de novo. Do Rio Vermelho à Barra em reforma e Campo Grande – e também na volta, no dia 3 de dezembro de 2013, ir de bicicleta é mais rápido e eficiente. Fica a dica.

Por hoje é só.

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Eduardo Luedy

Esse é o primeiro vídeo que marca a volta do Tração Animal. Chamamos Eduardo Luedy para conversar, acompanhamos ele num almoço delícia no meio da semana e aqui está o resultado!

Lembrando que quem tiver dicas para compartilhar, é só clicar aqui e quem quiser acompanhar o blog no Facebook, agora pode curtir essa página.

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Brincando de contar na rua para não se distrair

Cheguei a escrever aqui no blog uma vez sobre como pedalar na ciclovia é diferente de pedalar na rua, numa perspectiva de como o meu cérebro se ocupa da atividade.

Lendo o interessantíssimo Desenhando com o lado direito do cérebro de Betty Edwards, ela aponta pesquisa que diz que muitas pessoas têm seus momentos criativos quando estão correndo, dirigindo, ou fazendo uma atividade mecânica em que o cérebro já sistematizou as ocorrências, e você reage sem ter que pensar muito. Um lado do cérebro se ocupa de responder às condições quase automaticamente, o outro lado do cérebro então começa a trabalhar associações mais livremente.

Isso acontece comigo na ciclovia da orla depois de um tempo, e pode levar a estados de distração longes do ideal para quem está pedalando numa ciclovia cheia de surpresas como a nossa.

Depois de um ano e meio pedalando constantemente, isso começou a acontecer quando o trânsito está livre. Voltando do futebol na terça-feira à noite, começo a fazer música. Começo a pensar em texto, ter ideias, a cabeça vai sendo levada para outros lugares. Quando me percebo ‘viajando’ me obrigo a pousar de volta. A última vez que caí da bicicleta poderia ter sido evitada se eu estivesse mais alerta. E na rua, ainda por muitos anos, serei o elo mais fraco, mais frágil, mais vulnerável. Um certo nível de paranoia vem a calhar.

Criei um joguinho. Me concentro na pista e no jogo. O jogo é observar os carros que dividem a pista comigo – não absolutamente todos, claro, os que dá para observar sem muito esforço – e contabilizar quantos carros particulares têm mais de uma pessoa dentro. Cada carro com pelo menos duas pessoas conta um ponto. Assim, do Rio Vermelho para os Barris, o escore é algo triste, como 27. Do Rio Vermelho para Pituba, a última vez que fiz, contabilizei incríveis 5 carros levando alguém além do motorista. E o maior número a que cheguei foi indo ao Campo Grande, que passei de 50 e alguma coisa.

Isso me dava uma imprecisa impressão de que o nosso uso do carro é escandalosamente particular e saturado. Alguém no Governo do Estado levou a brincadeira a sério. Parte da pesquisa origem-destino da Região Metropolitana de Salvador – que qualquer cidade grande que se leva a sério deve fazer com frequência (Lídice da Mata foi a última prefeita que fez isso por nossa cidade) – foi publicada no Correio* tem poucos dias.

Veja aqui.

Nela, constata-se o óbvio, com toda a força que as obviedades podem ter. Resta agora o mínimo: que os governos respondam com soluções óbvias para nossos óbvios problemas. Que a União encontre outra forma de aquecer a economia que não seja facilitando a aquisição de carros, que o Estado entregue a parte 1 do metrô e comece de uma vez a parte 2 que prometeu, que o município tome um mínimo de vergonha na cara e consiga pelo menos superar João Henrique.

Não é muito. É o mínimo.

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É hora de voltar

Quando começaram os protestos de junho, parei de escrever. Fui à Tancredo Neves, fui ao Politeama, fui à prefeitura, fui ao Passeio Público algumas vezes, e a energia que contagiava as ruas me fez pensar sem parar, buscar informações, e nessas condições é difícil fazer outras coisas. É até fácil escrever, mas é difícil escrever sobriamente. E o que o momento pedia e pede, é sobriedade.

Fico feliz que a desmilitarização da Polícia Militar tenha virado pauta nacional. Fico feliz que a ideia de protestar para incomodar voltou á tona, quando há bem pouco tempo se dizia que era tudo uma “perda de tempo”, porque não ia “adiantar nada”.

Olhando daqui, de agora, é bom que a direita tenha descido às ruas. E cansaram. Adoram um “cansei”. Vão demorar a tentar aparelhar esse espaço tão energicamente novamente.

Dezenas de pequenos protestos pipocam em diversos lugares de Salvador, e é importante, na minha ótica, que não só “adianta alguma coisa” quando se “consegue alguma coisa”. A nossa situação é bem mais precária. Já se consegue alguma coisa quando se faz ouvir. Quando as pessoas se organizam para falar. E quando surge uma pressão para a escuta fora da iminência de eleições.

A minha escolha de viver trabalhando com o que gosto inclui também trabalhar mais ou menos o tempo inteiro. E não poder se dar ao luxo de recusar propostas. Em pouco tempo as atividades de rua e de trabalho ficaram inconciliáveis e enfim me afastei de fato. Se o segundo semestre for, na prática, tão sorridente quanto o que parece que será, poderei contribuir muito mais ativamente. Com tudo.

Coisas para prestar mais atenção.

Licitação de ônibus para a cidade de Salvador. As licitações estão de fato sendo discutidas e revistas. Acontece que a nova proposta é tão ruim quanto a atual e não resolve uma série de problemas estruturais e claro, não mexe na transparência e na margem de lucro. Também não amplia horário de funcionamento, frota, etc. A fiscalização popular ou parlamentar não fica mais fácil. E põe uma pedra na questão por 25 anos. Ridículo.

Enquanto o secretário Aleluia antes de assumir deu belíssima entrevista falando que a prefeitura não pode priorizar o carro, que as pessoas têm que pensar alternativas de transporte viáveis, e que “se não tem onde estacionar deixa o carro em casa”, o pacote de medidas da prefeitura está acontecendo em direção oposta. Diminuindo o número de semáforos da orla, renovando contrato milionário de semáforos (que estão de repente pifando, todos) sem licitação, porque é uma porcaria patenteada, e alterando mão e contra-mão para maior fluência de… carros.

Então o ônibus não melhora, dos planos inclinados ninguém fala, ciclovia então… E mesmo mantendo pensamento carrocêntrico, para quem faria um choque de ordem em 100 dias, vejam, as nossas ruas que precisam de uma reforma real e não apenas remendos, não foram sequer remendadas.

E esta é a perspectiva de quem anda pelo Rio Vermelho, Barra, Graça, Campo Grande, Barris e Pituba, que estão entre os bairros que recebem MAIS atenção da prefeitura. E a Cidade Baixa? E Cajazeiras? E a Boca do Rio? E a Ribeira? E o Alto do Cabrito? Tá melhor? Tá lindo? Vocês podem me dizer.

Esse prefeito não é sério. Com o ‘foda-se’ ligado aumenta o próprio salário, diz que não foi ele, foi João Henrique. Pois é, Neto, quem não desfaz, aceita. Quem não combate, aceita. E sobretudo quem aceita aumento, aceita.

Nesta retomada, com a ajuda fundamental de Agnes Cajaíba para dar ânimo e fôlego ao blog, vamos fazer uma série de não sei quantas entrevistas e vídeos legais de gente que anda de bicicleta e suas impressões, pra coisa ficar mais dialogada. Vamos começar logo mais com Eduardo Luedy.

Pra voltar é isso. Por hoje é só.

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Buracão e 3 mil quilômetros

 

Prometi falar das mudanças que a prefeitura anunciou para o trânsito, mas me ocupei com muitos outros afazeres e não parei para estudar o assunto antes de me manifestar. Permaneço apenas com a primeira impressão muito negativa. Mas vou procurar me informar e escrevo sobre isso em breve.

Queria relatar mais histórias recentes.

1.

Desisti de pedalar na chuva. Mais para conservar as coisas que carrego comigo, que não podem molhar, do que para me manter seco. Mas se saio de manhã de bicicleta com o céu aberto, em Salvador, ainda mais em junho, é impossível saber se na volta haverá chuva. É preciso assumir algum risco, não tem jeito.

Daí voltava para casa, não na chuva, mas logo depois de uma ‘pancada de chuva’, como se diz na TV. Uma chuviscada. Suficiente para que a água evidencie todos as ondulações do nosso asfalto. Sou muito curioso para saber qual o percentual de Nescau vai nas nossas ruas que dissolvem tão facilmente. Mesmo com pouca água, é preciso mais cautela, o trânsito fica lento e peguei um engarrafamento em Ondina, na metade do caminho. Passei por umas 300 poças, frequentes nas bordas da rua sem surpresas, uma vez que este é um trajeto que eu conheço muito bem. Próximo ao Largo de Santana porém, um buracão espreitava.

Um buraco recente, coberto de água se disfarçava de poça. O que aparentemente seria a poça de n. 301 era, na verdade, uma cratera suficiente para vencer a suspensão da minha roda dianteira. A bicicleta afundou uns 40 cm, travou, o pneu traseiro subiu, eu fui arremessado para frente, e num ato de reflexo ninja, desses que surgem apenas quando é preciso, caí em pé em frente da bicicleta. Pendi para a calçada, a bicicleta pendeu para a rua. Atrás de mim, um ônibus parou e esperou que eu retirasse a bicicleta da frente.

Eu estava muito lento. Passo por ali normalmente no dobro da velocidade. Podia ter me estabocado. Um pedestre viu a cena. Viu eu me recompor, retirar a bicicleta da rua, checar se houve danos na roda, checar se estava tudo no lugar, retornar à pista e seguir pedalando. Quando montei de novo na bicicleta ele não se aguentou e disse: “essa cidade está uma merda”. Devolvi um sorriso simpático. Acho que o trânsito está uma merda, mas “trânsito” e “cidade” não são sinônimos, apesar da confusão ser frequente.

Não quero botar na conta deste prefeito esse ou qualquer outro buraco. Acho mais justo fazer uma divisão pelos últimos 10 prefeitos (alô, Mário!), que nunca levaram a sério a nossa asfaltagem. Neto encontrou uma forma tradicional de resolução desse tipo de problema que é a recapeação preguiçosa, praticada desde que o asfalto chegou à Bahia. Uma tradição baiana: o remendo. Manteve intacto esse patrimônio imaterial da administração pública, que é o armengue asfáltico, uma das muitas singularidades baianas ainda não homenageadas pela nossa música popular. Os governos e empresários da Bahia (que são mais ou menos o mesmo grupo de pessoas) são muito avessos a mudanças. Se é assim desde voinho, quem é o Netinho pra mudar?

Sorte que eu estava com uma bicicleta desenvolvida para enfrentar terrenos irregulares e situações adversas. Imagina o prejuízo se fosse uma dobrável importada. Ai meu bolso só de pensar.

2.

O baque me fez pensar em manutenção e parei na loja de bicicleta.

Fui pela buzina (é triste, mas a minha fom fom parou de funcionar), mas fiquei conversando sobre várias questões. Entre elas, um problema com a minha corrente, que estala, e pula de um ‘gomo’ para o outro quando eu faço muita força.

Segundo o rapaz da New World Bike, o correto seria trocar a corrente da bicicleta a cada mil quilômetros mais ou menos. A partir daí ela já não mantém a uniformidade, tende a emperrar, folgar ou partir. Pior, tende a danificar as catracas.

Nunca tinha ouvido falar disso. Mecânica e manutenção são as partes da bicicleta que eu menos tenho conhecimento.

Fiz cálculos de aproximação de Malba Tahan, e a mountain bike que nunca trocou de corrente já acumula provavelmente cerca de 3.000 Km rodados. Lá vou eu investir mais dinheiro na bicicleta. Receoso perguntei quanto seria para trocar as catracas do meu modelo, mais a corrente. R$68 reais. O custo de um táxi para o aeroporto.

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3 historinhas

Dias movimentados em todas as esferas da vida fazem com que eu fique um pouco ausente deste blog.

Colecionei nos últimos dias, curiosas anedotas acontecidas comigo.

Vamos começar pela mais boba:

1 – Subindo a Ladeira da Barra, um pedestre resolve atravessar a rua correndo. Tem uma frase que eu repito muito e as pessoas não levam muito a sério que é: quem corre cai. Quem corre, também, enxerga pior. Aí o cara calculou os carros, e embora eu estivesse visível, não me viu. Colidiríamos. Mas eu vi o rapaz. Então parei. A prioridade é sempre do pedestre. Parei. Aí vem o interessante, ele parou também, e me disse pra seguir caminho. E ficou parado no meio da rua, perto de uma curva na ladeira. As pessoas realmente não sistematizam como se comportar na rua, e vão no improviso. Insisti pra ele terminar de atravessar, e terminou.

Depois morre e não sabe o que foi.

A próxima é mais legal.

2 – Tem, no Rio Vermelho, uma garagem colocada no lugar errado. Eu não sei se há lei ou determinação que proiba aquela garagem ali, mas havendo ou não, ela está errada. Ou a garagem muda de lugar, ou a faixa de pedestre muda de lugar. É uma garagem que, para sair, o carro tem que invadir a faixa de pedestres. Necessariamente. Uma garagem que dá para uma faixa. Se ninguém proibiu isso, ainda, Aleluia, meu bom, proíba, na moral. Melhor ainda! O carro não cabe todo na garagem, e ele fica com uma pontinha pra dentro da calçada. Aleluia, velho, veja isso. Pois bem, o cara resolve sair com o carro, e sendo uma faixa de pedestres no Rio Vermelho, claro que está cheia de gente esperando para passar, porque como o bairro engarrafa muito, os sinais só fecham uma vez a cada eclipse solar. Aí ele vai com o carro, saindo e buzinando. Dando ré e buzinando. Com a janela aberta, a uma distância de 50 cm das pessoas, faz a sua carinha de impaciente, e buzina, buzina, buzina, e anda. Eu sei que é recorrente, que está em todo canto, talvez seja por causa da faculdade que eu fiz, mas esse nível de objetificação é sempre muito impressionante, pra mim. Não consegui reagir. 8 pessoas a um metro do cara, saindo do caminho do carro que invade a calçada devagarzinho, na má vontade, sem olhar para o motorista. E o motorista sem olhar para as pessoas. Se comunicando pela buzina. São objetos. O cara incapaz de pedir licença – porque está dentro de um carro – as pessoas incapazes de dar lugar, ou de reclamar, ou de xingar. Todo mundo fingindo que o outro não existe. 9 pessoas espaço de 8 metros quadrados. Nenhuma palavra. É como se a língua falada não existisse.

Eu quase ri.

Quando o sinal fechou, as pessoas andaram, o motorista invadiu a faixa de pedestres e saiu no sinal vermelho.

E por fim, o chilique.

3 – Andava na Graça, e presenciei um ciclista berrando com um taxista. Berrando até ficar rouco. Não conversei nem com o ciclista nem com o taxista, então posso ter entendido a história errado, mas eis o que eu vi. O ciclista no meio da pista, na frente do táxi, e o táxi dando pouco espaço, de maneira razoavelmente agressiva, para o ciclista. O trânsito pára, engarrafado, e o ciclista grita: Aí, vai passar por cima do ônibus agora, também?! Não tá andando, seu otário! Otário! OTÁRIO!, e seguiu para ultrapassar o ônibus pela esquerda (o que neste caso, está errado).

Tenho visto com muita frequência ciclistas que desrespeitam o código se ofenderem com uma situação de conflito na rua. Como se todo conflito, toda situação de tensão no trânsito fosse gerada pela insensibilidade do motorista. E não é. É preciso saber que há pouca informação sobre como lidar com o ciclista. É preciso exigir que os carros cedam espaço, mas é preciso ceder eventualmente também. E é preciso seguir a porcaria do código. Se seguindo o código, as pessoas já não têm certeza de como prever as ações de um ciclista, com o cara indo para o meio da rua a situação tende a piorar. Por isso eu paro no sinal vermelho, mesmo com pista livre, mesmo sem ninguém para atravessar. Eu paro para que os carros vejam. Para que as pessoas vejam alguém fazendo a coisa certa (e porque furar seria mais um estímulo aos motoristas furarem, e eles andam furando DEMAIS em Salvador). E para que eu me habitue mais a fazer o certo do que o errado. Eu nem concordo que o sinal vermelho de carros deva servir na mesma medida para bicicletas, mas por enquanto a regra é essa, e eu só furo se não tiver ninguém por perto. Nem carros, nem pedestres. Não ultrapasso pela esquerda se o carro ou ônibus está em movimento. Não ando no meio da pista.

Pode ser que este exemplo que presenciei não sirva para esta análise. Pode ser que o taxista tenha sido muito agressivo e ameaçador duas curvas antes, pode ter dito umas gracinhas ao ciclista para ele se destemperar. Pode ser. Mas coisas assim acontecem. Têm acontecido. Discordo da postura do ciclista combativo, que briga com os carros. Fazer o certo, no seu espaço, e buscar uma harmonia, eu considero muito mais efetivo do que levantar o dedo. Ninguém aprende nada levando grito.

Por hoje é só.

Depois volto aqui pra comentar as transformações do trânsito de Salvador que começam a acontecer essa semana, que, se eu entendi direito, são horrendas, em geral.

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Eu que sou chato

– Oi, Camilo, comprei um carro.
– Nossa, um carro? Mas tá usando cinto de segurança, né?
– Claro.
– E tem air-bag. O carro tem boa estabilidade? Os pneus tão alinhados? Você tem que ficar sinalizando em todos os lugares onde vai entrar…
– Lógico…
– É importante! E andando dentro do limite de velocidade, né? Extintor em dia, pneus calibrados, tudo isso. Comprou óleo? Aquele fluido rosa do radiador?
– Que fluido… Rosa?
– É, pô! E se seu carro pifa no meio da rua, tem que saber essas coisas, ter uma caixinha de ferramenta no porta-malas, um step, triângulo, macaco, chave de boca, eu tenho um amigo motorista que sabe como funciona todas as partes do motor…
– Sim, pô, eu sei como é que usa um carro.
– Não, sim, veja bem, claro, é que todo ano morre uma cacetada de gente dirigindo carro, e ainda acaba matando outras pessoas, é perigoso pra caramba!
– Nem tanto, Camilo, muita gente usa carro…
– E pra estacionar como é?
– Como assim?
– Como é que faz? Para em estacionamento? Paga toda vez?
– As vezes tem vaga que não paga, e…
– E paga pro flanelinha, tal, um amigo meu foi ameaçado por um flanelinha uma vez.
– Velho, relaxe. Eu sei usar um carro. Já tive carro antes. Conheço as regras…
– E você para no sinal vermelho, né? Faixa de pedestre mesmo quando não tem sinal, sabia? Se tiver alguém pra atravessar, o carro tem que parar. Vários motoristas furam sinal vermelho
– Claro que eu paro no sinal vermelho…
– E capacete, tá usando capacete?
– …

É assim, motoristas, que a média das pessoas que nunca pararam para pensar sobre bicicleta, que nada sabem sobre bicicleta, tratam um ciclista.

E o povo diz que ciclista é que é chato.

Legal.

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