Mas você pega carona, né?

Quando falo que sempre optei por viver sem carro desde sempre, procuro evitar colocar as coisas num tom de “sinta-se culpado por ter um carro, eu vivo sem um e você deveria fazer o mesmo”. Não é fácil estar completamente fora desse tom. E mesmo com isso em mente, a sua forma de falar é só metade do processo de comunicação. É difícil que as pessoas não comecem de alguma forma a defender as suas próprias escolhas, mesmo que eu não esteja desejando impôr minhas ideias num formato de catequese. O mundo das ideias invisíveis em conflito.

Uma das defesas mais clássicas é: “você vive sem carro, mas também pega muita carona com quem tem carro, não é?”. É. “Ah…!”. Abrindo as portinholas dessa ideia encontram-se coisas interessantes como: “Então é importante que alguém como EU tenha carro para que alguém como VOCÊ possa fazer as suas escolhas”. Sim. Isso pode ser entendido como “legal, legal, você não pode me criticar afinal existe uma relação de dependência direta”, sim, o que é uma leitura improdutiva, porém comum, mas eu prefiro entender como um “você está pensando o transporte como uma fenômeno coletivo.” É um exercício razoavelmente complexo se a gente olhar de perto.

Embora todo o discurso sobre nossas escolhas nos seja colocado como uma questão individual e particular, que carreira escolher, onde morar, o que vestir, como se qualificar e finalmente, como se locomover, sob um olhar mais crítico vai ficando claro que as escolhas não são tantas, nem estão tão acessíveis. Que grande parte das escolhas “individuais”, se refletem em comportamentos de massa e questões da vida em sociedade. Nós, pessoas, somos máquinas de copiar. Sotaque, jeito de andar, de se alimentar, de se divertir, de exercer poder nas pequenas coisas. Os hábitos muitas vezes vão se construindo de maneira irrefletida, e em muitas outras vezes o discurso racional surge a posteriori para reforçar e dar consistência a uma “escolha” que foi feita de maneira inconsciente. Torcer para o Vitória, gostar de beterraba, tomar Coca-Cola depois do almoço do fim de semana, agradecer a Deus – acreditando ou não – botar o braço pra fora quando está dirigindo, são pequenos hábitos que vão surgindo. Muitas vezes (e ainda assim nem sempre) escolher entre GVT ou NET é uma escolha racional e refletida. Mas a maioria dos costumes que vão se impregnando em nós e definindo quem somos, simplesmente vão chegando.

As escolhas individuais são negociadas com o todo. Com a família, com os transeuntes, com as autoridades e com as próprias maluquices que a gente vai criando dentro da cabeça. A gente se veste pensando se a roupa é adequada para a ocasião, escolhe as palavras de acordo com o ouvinte, etc. As escolhas individuais, os “casos isolados”, as questões íntimas e pessoais, todas elas, todas têm contextos e o peso da força invisível daqueles que nos cercam. Talvez tenha soado determinista demais mas vejam: não somos o fruto automático do nosso meio, mas somos o resultado da constante negociação com o nosso meio. E com os orixás.

Como já escrevi antes, o trânsito não é uma questão de foro íntimo e particular. É uma questão do coletivo. O trânsito é exemplo completo. As escolhas individuais afetam a todos. Diretamente.  Não perceber isso é ser parte de um problema sem se dar conta. E como também já arranhei teorizar em outros escritos, o trânsito está em contato com tudo. Um trânsito mais funcional abre portas para que uma miríade de aspectos da nossa convivência na cidade seja também mais funcional.

Não que dar carona seja uma obrigação, mas é uma coisa boa que se pode fazer pelo coletivo sem esse tom “parasita-hospedeiro”. Quem dá carona também se beneficia. É como ajudar uma senhora a atravessar a rua ou ligar pra Embasa ao avistar um cano estourado numa rua qualquer. A fraternidade é vermelha. A vida real não é individual. A lógica das escolhas individuais, dos pensamentos individuais é a lógica do consumo, as pessoas que repetem esse mantra estão te vendendo coisas e/ou serviços. Essa lógica tem limites claros. Ou deveria ter. Em alguns casos até mesmo sua liberdade de consumo está acabando. Quem quiser beber Heineken no Carnaval vai ter que suar.

Dar carona é legal e faz bem a quem dá e a quem recebe. Num cenário utópico em que TODO mundo dá carona o tempo inteiro, teríamos um trânsito muito, muito mais otimizado, e uma vida melhor para o conjunto das pessoas da cidade. Quem não quer, isso?

Então minha sugestão é essa: se possível tente sair sempre 10 minutos mais cedo. E dê carona. Ninguém perde.

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