Desaforo

Parece improvável, mas só agora, com quase dois anos de bicicleta, rodando pra cima e pra baixo, alguém se deu à liberdade de me dizer um desaforo gratuito numa ação de opressão direta à minha escolha de me locomover de bicicleta.

Minha meta era chegar ao Teatro Vila Velha para assistir Troilus e Créssida, espetáculo-mostra resultado do Curso Livre da Escola de Teatro da UFBA. Optei seguir pelo confuso trânsito da Barra e subir a minha ladeira preferida. No caminho, perto do pé da Ladeira da Barra, um ônibus parou no ponto, e eu imaginei que houvesse espaço para passar pela direita, entre o ônibus e a calçada. Eu não contava com a vala irregular que avançou sobre a pista e tirou o meu espaço. Não dava pra passar. Parei, portanto, ao lado do ônibus. Entre o coletivo e a calçada de pedestres. O jeito era esperar o ônibus sair e seguir atrás dele. Situação normal e tranquila.

Ouvi alguém dizer “depois se machuca e não sabe o que foi”, dito mais ou menos ao vento. Não imaginei que fosse comigo, mas depois quando o sujeito repetiu a mesma frase, antes que ele terminasse, estabeleci contato visual e ele terminou de dizer a frase olhando pra mim e eu olhando pra ele.

Depois se machuca e não sabe o que foi

Quem se machuca?

Fica andando assim, aí se machuca e não sabe o que foi.

Você tá machucado? Eu não estou. Eu não me machuco não, velho.

Um camarada meu caiu assim mesmo, passando de ônibus, se machucou todo.

Então dê conselho ao seu camarada. Eu estou na lei, fazendo tudo certo.

O ônibus saiu, eu saí atrás. Quem me conhece sabe que nos 5 minutos seguintes pensei em mil outras respostas para dar ao sujeito. Algumas didáticas, outras ácidas, a maioria envolvendo palavrões.

Me senti alvo de uma frase do tipo: “depois é estuprada e não sabe o que foi”. Fui pré-culpabilizado de um acidente que ainda não aconteceu, porque fiz a escolha errada de sair de bicicleta e ME colocar em risco. Foi isso, na verdade, que ele me disse. Que eu sou o culpado do que quer que venha a acontecer comigo, por andar de bicicleta. E aconteceu, por acaso, que eu soube como responder na hora – o que normalmente não acontece. Normalmente eu penso na resposta perfeita 20 minutos depois do momento apropriado. A resposta poderia ter sido melhor, mas ainda assim, foi uma vitória.

Só pra lembrar que ainda falta muito.

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Uma resposta para Desaforo

  1. Adna Novaes disse:

    Talvez por eu ser mulher, passo por isso mais vezes do que gostaria, Camilo…
    E olhe que tenho só cinco meses de bicicleta em Salvador!
    É uma ignorância que me incomoda muito, mas eu (reforço), mulher que sou, preciso ficar calada, pois é muito pior responder a esse tipo de comentário, já que, ao contrário de você, sempre tenho uma resposta na ponta da língua. Tive que aprender a me calar porque as tréplicas são dez vezes mais agressivas…

    Enfim…
    Excelente texto.
    Parabéns.

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