Ciclovia ilegal de Ilhéus

Normalmente este blog não reproduz notícias, ou experiências que não sejam minhas, mas esse caso vale a pena.

Vejam esta notícia.

Meu comentário é que: É óbvio que a ciclovia é ilegal. É óbvio que a expectativa dos ativistas não era de fato criar uma ciclovia que fosse imediatamente aceita pelo poder público.

O fim aqui era justamente pressionar a prefeitura, apontar que existe demanda para este tipo de equipamento e que se quer prioridade na introdução deste. Missão cumprida.

Governos, quando querem fazer uma coisa rápido, eventualmente conseguem. Uma reforma inteira no bairro da Barra seria um bom exemplo. Alguns estádios também são exemplo.

A ciclovia em Ilhéus claramente não é prioridade. E é disso que se trata a ação. Gerar uma notícia, gerar um incômodo, efetivar um cutucão. Um bom gestor, um bom secretário, saberia aproveitar essa pressão, prometeria uma ciclovia para dentro em breve e cumpriria essa promessa. Um prefeito e um secretário assim ganhariam crédito com a população, gastariam muito pouco com a implementação desta medida e serviriam ao público de fato, mostrando que é possível um diálogo na democracia. Se o canal estivesse aberto – ou se se abrisse a partir de então – é muito pouco provável que novas ações “anárquicas” como essa se repetissem. Seria uma ação inteligente do ponto de vista pragmático, eleitoreiro e maquiaveliano.

Ao olharmos com cuidado para as declarações do secretário Isaac Albagli, no entanto, poderemos notar posturas muito diferentes e, no meu entendimento, politicamente burras. Sua gritante desatenção à questão da bicicleta enquanto veículo urbano possível é, para mim, o mais importante. Se alguém tentar usar a ciclofaixa ilegal, esta pessoa estará em conformidade com a lei que já existe e já deveria ser aplicada no município de Ilhéus. A ciclofaixa – que segundo a notícia do Ilhéus 24h é parte de um projeto pensado e planejado por um especialista, embora falte detalhes nesta parte do texto – não expande a área da pista que já é de uso prioritário da bicicleta em qualquer via urbana do país de acordo com o Código – que é federal. Um metro à borda da pista é do ciclista. Não precisa de ciclofaixa para isso, e quem “acreditar” na ciclofaixa não vai imediamente correr risco de morrer, como sugere o secretário. Fica claro que embora tenha assumido o discurso da moda “bicicleta é legal, já estamos pensando nisso e estudando para fazer no futuro”, o secretário ainda não estudou nada e repete chavões sem ter lido o código de trânsito ou entendido o funcionamento da bicicleta nas cidades. Não é uma irresponsabilidade permitir ciclistas na ponte. Até porque já é permitido. Não é um risco andar na pista de rolamento de acordo com as regras. É possível fazer de forma segura e pelo visto está claro que os ativistas de Ilhéus já o fazem e resolveram tomar uma atitude.

Uma ciclofaixa não concede permissão ao ciclista. Ela apenas exclui o espaço para o carro. É bem diferente, e o secretário demonstra desconhecimento ao aplicar seu terrorismo-senso-comum na resposta à imprensa.

Mas daí, diante da provocação, o que é mais importante? Dialogar ou reprimir? Mostrar força ou eficiência? O problema de dialogar, é que torna o diálogo possível. E se um conseguir dialogar, de repente todo mundo pode querer se expressar. E aí, seria o quê? O caos? Não sei. Talvez seria a democracia. A resposta é imediata para a repressão, mas não para a solução. Vamos localizá-los, identificá-los e reprimí-los tão logo for possível. Mas vamos tornar o uso da bicicleta mais viável, quando? A notícia não diz.

Parece que é muito mais importante um governo forte, que não possa ser desafiado, do que um governo disponível para o diálogo. Governos democráticos devem ser desafiados. E devem saber responder de forma inteligente aos desafios. Assim poderiam desenterrar ou ressuscitar uma palavra esquecida da nossa política: credibilidade.

Quando se diz “não se pode apoiar nem estimular este tipo de voluntarismo” soa como “não se pode provocar o governo para fora da caixinha. Nos deixem ser inoperantes em paz!”.

Parabéns, Ilhéus. Salvador podia aprender com isso sugerindo implementações urgentes de ciclovias úteis na nossa cidade. Temos algumas. A maioria, no entanto inútil.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s