Retorno

Agora que a vida está mais em ordem, e – quem diria – o ano está acabando com algumas perspectivas positivas, já há espaço e tempo para voltar e escrever.

Vou tratar rapidamente de alguns tópicos que considero importantes de maneira breve e objetiva, e nos dias seguintes, vou desenvolvendo tema a tema.

1. Sobre este blog.
Agora que pretendo retomar, sempre vale reforçar: Eu não sou da Igreja Universal do Reino do Pedal. Não sou pela catequese. Não acho que a bicicleta é o destino da humanidade ou obrigação de qualquer pessoa. Não acho que é a melhor solução para todos os seres humanos. O blog existe para mostrar que é possível andar de bicicleta, divulgar o uso correto da bicicleta e suas polêmicas e nuances, disctuir trânsito e mobilidade urbana, e ao fim, servir como um relato da minha experiência e perspectiva pessoal. Não acho que você ou qualquer outro leitor tenha que necessariamente fazer o que eu faço. Se, no entanto, decidir pedalar em Salvador, é provável que eu me disponha a ajudar no que estiver ao meu alcance. Também não odeio carros ou motoristas. Apenas quero propagar a informação e o respeito aos direitos dos ciclistas – e por tabela, dos pedestres.

2. Bicicletas do Itaú.
Estou surpreso. Com muitas coisas. Supreso de não ter ouvido falar de nenhum acidente sério com nenhuma bicicleta – uma vez que a maioria dos laranjinhas que eu vi circulavam como se estivessem no fantástico mundo sem lei. Surpreso de ver tanta gente que nunca vi manifestar nenhum interesse por pedalar usando as bicicletas com frequência. Viva o hype. O impacto foi muito maior do que eu esperava. Mas claro, é pouco. É pouquíssimo. Quero muito mais. Mas é um bom começo. Que bom que eu queimei a língua, aparentemente. Diz Netinho que até o fim do mandato teremos 90 Km de ciclovia/ciclofaixa. Oremos.

3. Mudanças recentes no trânsito de Salvador.
Está claro para mim que a equipe de José Carlos Aleluia e Antônio Carlos Magalhães Netinho não acreditam em estudos, em planejamento, em metas, cálculo de impactos e resultados. É divertido que o executivo se comporte dessa forma porque quando você vai participar de um edital, assumir uma licitação, ou tratar do dinheiro público que vem da prefeitura ou do Estado, você tem que saber quantos centímetros de fita isolante vai precisar com pelo menos 10 meses de antecedência, e tem que guardar recibo de tudo, saber quanto tudo vai custar, e fazer com que custe aquilo que você disse que custaria. Depois esperar o dinheiro sair super atrasado e eventualmente cortado. Legal. Mas quando são eles, é assim: cria uma faixa solidária na orla e vê o que acontece! Gasta uns milhões aplicando botox na orla da Barra sem audiência pública! Desfaz a faixa solidária! Faz a faixa exclusiva de ônibus! Topa o acordo das bicicletas, entope bicicleta! Desfaz a faixa exclusiva. Inverte a Rua Chile! Inverte o trânsito na Paulo VI! E assim por diante. Será que o trânsito da Av. Paulo VI também vai ‘desinverter’? Pesquisa de origem-destino serve para isso. Para levantar um monte de dados e fazer mudanças pertinentes com os dados coletados. Planejamento de ação serve para você saber como as coisas vão ser quando você aplicar a mudança. Porque é cristalinamente óbvio que o trânsito vai ficar confuso no momento imediato após a mudança, e que a Av. ACM vai engarrafar MAIS, no começo, com a faixa exclusiva de ônibus. Tem que dar tempo para as pessoas se acostumarem, assimilarem, e mudarem a sua vida. Deixar de sair de casa de carro e passar a usar ônibus é uma mudança de vida brutal para grande parte dos soteropolitanos. É tipo deixar de comer açúcar. Cortar o queijo. Já pensou? É uma mudança difícil. Eles têm que ser convencidos de que é realmente necessário. Desfazer a via exclusiva porque o trânsito piorou sem deixar nem 3 meses de mudança é ingenuidade ou incompetência?

4. Mortes violentas no trânsito e o perigo de viver.
Eu atraio o debate trânsito, porque eu falo disso sempre. E porque o trânsito se conecta a tudo. Tudo. Da eficiência do transporte de ambulância do Hospital Aliança à qualidade dos discos gravados no estúdio de Tadeu Mascarenhas, o trânsito está lá, influindo. Recentemente o discurso do medo tem batido forte. FORTE. Tenho sentido os motoristas um pouco mais irritados na rua – talvez seja só o Natal se aproximando – e houve uma série de mortes violentas famosas. Que são só a janelinha em destaque das mortes violentas diárias causadas por imprudência, incompetência ou imbecilidade. Hoje mesmo vai morrer provavelmente uma família inteira. É assim o tempo todo. A médica derrubou o casal da moto, a menina tirou foto do velocímetro a 170 Km/h, o ator de Hollywood se espatifou na estrada. Quando esses assuntos surgem, surge o assunto da prudência, do risco, do perigo, e três cervejas depois, a gente acaba chegando no perigo que é andar de bicicleta. Como hoje serei breve vou só escrever o seguinte: Sim. É um perigo estar na rua de bicicleta exposto aos motoristas. Assim como é um perigo sair à pé. E é também um perigo sair por aí de carro. De táxi. De ônibus. O Elevador Lacerda é um perigo. É um perigo ir de noite ao Nordeste de Amaralina. E ficar de bobeira em feriados na Graça. Salvador tem muitos homicídios. É tudo um grande perigo.

Pronto.

Porém, eu não vou viver com medo. Ponto. Eu vou ter medo em mil ocasiões. Mas eu não vou deixar o medo orientar a minha vida. Eu vou pra rua. E um dia eu vou morrer. Vou morrer indo pra rua. Pode ser num escorregão idiota de domingo, pode ser num assalto, num acidente de trânsito, numa insuficiência cardíaca aos 114 anos. Mas até lá, eu vou viver. Vida com cautela e prudência (é um saco atravessar a rua do meu lado porque eu fico esperando uma oportunidade mais segura). Mas sem o pavor cotidiano do que pode vir a acontecer a qualquer momento em qualquer lugar. Me recuso. E não vou embora de Salvador.

5. Dúvida importante
A velocidade máxima permitida em rodovias, neste país, é 110 Km/h como orientação geral do nosso Código. Em alguns casos, se assim estiver sinalizado, pode ser um pouco maior, mas nunca ouvi falar de nada que ultrapasse os 130 Km/h. E 130 eu só ouvi falar, nem sei se ainda se usa. Isto posto eu tenho uma dúvida para Dilma Roussef. Dilma, você e Luiz aprenderam que estimular a venda de automóveis aquece a economia e minimiza efeito de qualquer crise no Brasil. E nesse governo temos como nunca na história desse país, trabalhadores comprando carro. Quase eu compro o meu (brincadeira). A tecnologia que limita velocidade máxima já existe. A tecnologia que alerta o motorista que ele está a mais de 80 Km/h já é bastante usada. Porque diabos é possivel que um carro “de passeio” chegue a 200 Km/h? Porque não existe um diacho de uma determinação legal que torne obrigatório um dispositivo de segurança que interrompa a injeção de gasolina no caso de ultrapassar os 120 Km/h, que seja?! Outras pessoas podem me ajudar a entender porque isso é fisicamente possível, e porque – desde que a tecnologia existe – ela não é obrigatória. O álcool em gel não foi adotado como medida de segurança? A panela de pressão que não explode não é o único modelo que pode ser fabricado? A cabeça do boneco do LEGO não é furada pra não deixar as crianças se asfixiarem? E porque diabos um automóvel com um dispositivo “colocar a minha vida e a de outros em risco” é amplamente distribuído? Porque isso é possível?!

6. Agora é permitido aos shoppings cobrar estacionamento.
Agora que João Henrique não se elege nunca mais. A bandeira principal dele caiu! É um serviço. Não é público. Acho justo. E acho BOM porque é um desestímulo ao uso de carro. Um incômodo a mais para forçar o cidadão que só raciocina carro particular a raciocinar um pouco mais ônibus. É ônibus – e não bicicleta, e muito menos viaduto ou metrô – ÔNIBUS que vai tornar nossa cidade mais viável. Se os shoppings realmente começarem a cobrar, é mais um empurrãozinho na direção certa. Precisamos de mais gente pensando em ônibus.

7. Miscelânea
Fiquei achando os motoristas irritados porque só hoje fui ameaçado por dois motoristas nervosinhos. Outra coisa interessante que aconteceu é que na minha ida para o centro ultrapassei um carro modelo esportivo amarelo, preso no engarrafamento. Perdão, nunca vou saber o nome desse carro. Parecia um carro de filme ou vídeo-game. O dono era barrigudo. Por isso eu sei que era um carro esportivo muito caro. Fiz o que eu tinha que fazer no Centro e na volta, quem também estava voltando, preso no engarrafamento? O mesmo carro esportivo amarelo. Ultrapassei ele de novo. Do Rio Vermelho à Barra em reforma e Campo Grande – e também na volta, no dia 3 de dezembro de 2013, ir de bicicleta é mais rápido e eficiente. Fica a dica.

Por hoje é só.

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4 respostas para Retorno

  1. Rodrigo Carreiro disse:

    Camilo, existe pelo menos um projeto na câmara que trata do limite de velocidade nos carros, mas infelizmente o “corte” é em 140km/h. De qualquer forma é uma tentativa. Você conhece o site Vote na Web? Ele apresenta os projetos da câmara e dá espaço para que os cidadãos conversem a respeito e votem se aprovam o projeto de lei ou não. Lá, 65% é contra a ideia. Dê uma olhada: http://www.votenaweb.com.br/projetos/plc-7434-2010. abs

  2. Camilo Fróes disse:

    Valeu Rodrigo! Vários argumentos tristíssimos. A linha de discurso muito próxima à National Rifle Association. “Guns don’t kill people”. Como se 43 mil mortes por ano (Brasil / 2012) pudessem ser tratadas como uma questão de escolha pessoal. “Eu quero ter um carro potente”. Bem triste. Votei lá.

  3. Adna Novaes disse:

    Camilo, admiro como você expõe esses questionamentos de maneira tão clara!
    Penso como você em relação a todos os pontos que você colocou, especialmente para Salvador. O medo de andar de bicicleta sempre vai existir, engenharia de trânsito na nossa cidade é pura piada e, sim, ônibus é a solução mais viável para a capital baiana: sua implementação é mais fácil e mais barata.
    O meu trajeto de todos os dias inclui o Dique do Tororó e já cansei de ouvir motoristas mal humorados mandando eu pedalar sobre a calçada! É incrível a falta de informação quando se trata de bicicletas no trânsito. Também não sei se é o clima de fim de ano, mas tenho ouvido muito mais desaforos do que o normal nessas últimas semanas…
    Fazer o quê, neh? Enquanto isso, vamos resistindo e pedalando.

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