Brincando de contar na rua para não se distrair

Cheguei a escrever aqui no blog uma vez sobre como pedalar na ciclovia é diferente de pedalar na rua, numa perspectiva de como o meu cérebro se ocupa da atividade.

Lendo o interessantíssimo Desenhando com o lado direito do cérebro de Betty Edwards, ela aponta pesquisa que diz que muitas pessoas têm seus momentos criativos quando estão correndo, dirigindo, ou fazendo uma atividade mecânica em que o cérebro já sistematizou as ocorrências, e você reage sem ter que pensar muito. Um lado do cérebro se ocupa de responder às condições quase automaticamente, o outro lado do cérebro então começa a trabalhar associações mais livremente.

Isso acontece comigo na ciclovia da orla depois de um tempo, e pode levar a estados de distração longes do ideal para quem está pedalando numa ciclovia cheia de surpresas como a nossa.

Depois de um ano e meio pedalando constantemente, isso começou a acontecer quando o trânsito está livre. Voltando do futebol na terça-feira à noite, começo a fazer música. Começo a pensar em texto, ter ideias, a cabeça vai sendo levada para outros lugares. Quando me percebo ‘viajando’ me obrigo a pousar de volta. A última vez que caí da bicicleta poderia ter sido evitada se eu estivesse mais alerta. E na rua, ainda por muitos anos, serei o elo mais fraco, mais frágil, mais vulnerável. Um certo nível de paranoia vem a calhar.

Criei um joguinho. Me concentro na pista e no jogo. O jogo é observar os carros que dividem a pista comigo – não absolutamente todos, claro, os que dá para observar sem muito esforço – e contabilizar quantos carros particulares têm mais de uma pessoa dentro. Cada carro com pelo menos duas pessoas conta um ponto. Assim, do Rio Vermelho para os Barris, o escore é algo triste, como 27. Do Rio Vermelho para Pituba, a última vez que fiz, contabilizei incríveis 5 carros levando alguém além do motorista. E o maior número a que cheguei foi indo ao Campo Grande, que passei de 50 e alguma coisa.

Isso me dava uma imprecisa impressão de que o nosso uso do carro é escandalosamente particular e saturado. Alguém no Governo do Estado levou a brincadeira a sério. Parte da pesquisa origem-destino da Região Metropolitana de Salvador – que qualquer cidade grande que se leva a sério deve fazer com frequência (Lídice da Mata foi a última prefeita que fez isso por nossa cidade) – foi publicada no Correio* tem poucos dias.

Veja aqui.

Nela, constata-se o óbvio, com toda a força que as obviedades podem ter. Resta agora o mínimo: que os governos respondam com soluções óbvias para nossos óbvios problemas. Que a União encontre outra forma de aquecer a economia que não seja facilitando a aquisição de carros, que o Estado entregue a parte 1 do metrô e comece de uma vez a parte 2 que prometeu, que o município tome um mínimo de vergonha na cara e consiga pelo menos superar João Henrique.

Não é muito. É o mínimo.

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