…e o outro tipo de reconhecimento

O outro reconhecimento legal é quando te vêem pedalando de dentro de um carro.

É sempre divertido encontrar amigos num ambiente hostil. “Bás Cabîlo, o drânsido é um ambiende hosdiiiil?“, sim, pessoal, claro que é.

Frases que eu ouço de motoristas quando pego carona, são: “Dá vontade de matar um desses“, “desculpa o palavreado tá, mas é que quando eu dirijo eu viro uma pessoa ruim”, “sai da frente, sua desgraça!“.

Note que não estão no repertório das mesmas pessoas caminhando no shopping.

De dentro do carro, é um pouco como estar na internet. O povo se solta. É como se o vidro e o aço virtualizassem um pouco as relações. Mesmo que no shopping as pessoas sejam mal-educadas, se esbarrem umas nas outras, troquem de faixa sem avisar, e não se dêem ao trabalho de ficar no lado direito da escada rolante para deixar a esquerda livre para quem está com pressa. Nunca acontece. As pessoas continuam as mesmas. Mas o ambiente muda. As condições mudam. E as relações mudam.

Um dia os americanos vão adotar a buzina do pedestre, que junto com o Google Glass, quem sabe, objetificarão as relações pessoais a tal ponto que qualquer ambiente público seja como o trânsito. Oremos. Mas enquanto isso, num ambiente iluminado, povoado, que inspira civilidade, as relações são bem menos nocivas.

Bás Cabîlo, no xóbim as bessoas esdão relassaaando, gastaaano, dão esdão gom pbressa como esdão na rrrua!“. Ahã, como se no shopping não tivesse banco, correio, lotérica e le biscuit entre outras coisas que te ajudam a resolver a vida prática e se estressar. Mas o que mais tem no shopping? Seguranças, espelhos, e relações inevitavelmente pessoais. Diretas. Se algum imbecil gritar num shopping: “Sai da frente sua velha! Só podia ser mulher! Não vê que eu tô passando?!” todos ao redor vão reagir. Ou deveriam. Muitos esperto-fones terão suas câmeras ligadas e um segurança certamente abordará o idiota em questão para constranger esse tipo de comportamento.

No trânsito não, né? No trânsito o imbecil grita, gesticula, ameaça a vida e segue seu rumo. Lá não tem segurança. Ou tem pouco. Lá, reina uma certa impunidade, aqui e ali, quando se desobedece uma regrinha ou outra. De dentro da virtualidade do automóvel as pessoas não te abordam, e você se sente livre para ser um completo abestalhado.

O shopping, é óbvio, só um exemplo. Ruas movimentadas com comércio, com botecos, padarias, ruas vivas e cheias de gente inspiram comportamentos também mais de acordo com o bom senso e a educação. É que motorista de carrão, nesses dias, tem pavor a rua. Gosta mesmo é de shopping, então a comparação é importante.

Como na internet.

Daí, como eu dizia, quando encontro amigos, ciclistas, motoristas, ou pedestres, no ambiente hostil do trânsito, é sempre uma alegria. O engraçado é que para os motoristas também é uma alegria, buzinam, acenam, berram: “Camilo!”. Aê!

Que festa! É massa.

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2 respostas para …e o outro tipo de reconhecimento

  1. wille disse:

    Fala, Camilo!

    Viu esse debate sobre o projeto para as ciclovias em Salvador: https://www.youtube.com/watch?v=FH5h0fDmrKM&list=UUCSSol4oU6GcCUh0qw9eVHw&index=6

    Tô assistindo aqui…

    • wille disse:

      O debate em si não vale muito a pena: três pessoas que praticamente não andam de bicicleta! Mas no começo tem umas informações interessantes da CONDER sobre o projeto que vai construir 200 km de ciclovias.

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