Um metro e meio

Quase fui derrubado ontem. O que serve de tema para revisitar outra questão da lei.

De volta à lei.

A lei determina que veículos motorizados devem diminuir a velocidade ao ultrapassar uma bicicleta. Aponta ainda uma distância de um metro e meio na passagem, para dar segurança ao ciclista. Não que a lei realmente interesse a boa parte dos nossos motoristas ou ciclistas, mas enfim, é sempre bom lembrar…

Vários amigos motoristas se assustam quando ouvem falar dessa informação: Um metro e meio? Não é muito?

Não é.

No meu caso eu estava pedalando na borda da esquerda – sempre prefiro a borda da direita, mas estava na esquerda porque me preparava para entrar à esquerda em pouco tempo – e passou um carro branco, um sedan que não é de uma das quatro marcas (no meu tempo, carros só tinham quatro marcas), entre 50 ou 60 Km/h a menos de 50 cm. Arrisco dizer que o retrovisor passou a uns 20 cm.

Isto é uma infração e um risco totalmente desnecessário à minha vida, ainda mais considerando que a pista do meio estava livre, ele nem precisava estar na esquerda. Passou perto por – mais uma vez como em tantas outras – não reconhecer a existência do ciclista enquanto sujeito do trânsito. Não se relaciona e segue o caminho como se eu não estivesse ali. Mas estava.

Porque 1,5 m não é muito?

Um carro que passa a 50 Km/h ou mais, do seu lado, pode te derrubar sem encostar em você. Todo mundo aqui já viu Matrix e sabe que sólidos movimentando-se geram ondinhas cinéticas. Pequenos empurrõezinhos de ar. Fora o barulho e o susto, que também podem te derrubar.

Uma bicicleta com um ciclista em cima tem um centro de gravidade razoavelmente oscilante. Todo ciclista (QUASE todo ciclista?) pedala em um constante e suave zigue-zague. Uns mais, outros menos. O trajeto do ciclista é, portanto, mais frágil e menos previsível do que o de um carro, uma moto ou um caminhão.

Outra: o meu braço, quando aberto para a direita, tem cerca de 75 cm. O “pisca-alerta” do ciclista é o braço. É assim que ele sinaliza para onde vai. Este espaço é necessário para a comunicação e segurança de quem pedala. Há braços maiores que o meu à solta por aí.

Ainda: o pior asfalto está na borda. Valas irregulares, excessos de asfalto resultado da liberação precoce ou aplicação incompetente, bocas de lobo sem cobertura de concreto ou aço, o que faz com o ciclista com frequência – em Salvador, com MUITA frequência – precise de algum espaço de manobra para conseguir seguir sem capotar.

Mas 150 cm não é meio impossível de cumprir nas estreitas ruas do Brasil? Sim e não.

Não há, entre as sociedades humanas, nenhum espaço onde todas as regras são cumpridas ao pé da letra. A regra, mesmo em aviões, mesmo no exército, em bancos, em cirurgias, está sujeita a interpretações e adequações quando confrontadas com a realidade. Se há um lugar onde as regras são referência, sem necessariamente perder a sua importância, esse lugar é o trânsito. Uma linha contínua era para ser encarada como uma barreira física, por onde não se pode passar. Certo? Um caminhão com uma placa “mantenha distância”, essa distância é de 5 a 40 metros. Quem faz isso? Hm. É possível negociar com a regra, buscando respeitá-la, respeitar o sentido da regra.

É só mais uma forma de dizer o óbvio: ali está um ser humano. Fique atento, tenha cuidado.

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Uma resposta para Um metro e meio

  1. Edton Costa disse:

    Eu creio que nunca tive essa experiência de ser ultrapassado por um motorista com 1,5m de distância. Os motoristas de ônibus são os que mais me respeitam, ultrapassam um pouco mais longe, os outros veículos encostam tanto que eu procuro uma calçada e paro.

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