A lei do forte

É legal tratar de obviedades e ver como muitas vezes elas atuam em lógicas específicas, que não são necessariamente óbvias.

A lei do mais forte no trânsito é um fato. Se não em qualquer trânsito, no trânsito brasileiro, sim. No trânsito baiano, muito.

Há quem diga – e eu não consigo lembrar quem – que só há um medo, e que todo medo deriva do medo da morte. Há o medo de altura, porque se cair, você pode morrer. O medo de perder o emprego, porque sem dinheiro e com dívidas você não poderia pagar pelas coisas básicas que o mantém vivo (e aqueles que não temem perder o emprego é que sabem bem como farão para sobreviver daí por diante).

A lei natural do mais forte, tal como aplicada na prática no trânsito, se opõe diretamente à lei formal, e sendo este desvio de norma tão frequente e tão aceito, cria-se uma brecha que vai tolerando cada vez mais desvios. A lei, que não seja para ser seguida ao pé da letra, mas que sirva de referência, é vista como piada.

Um caminhão ameaça um caminhonete, que por sua vez, ameaça um carro, que quando pode ameaça uma moto ou outros carros, e todos ameaçam a bicicleta e o pedestre num formato que pode ser reduzido na pergunta: o que aconteceria, se batesse?. Quem sofreria o maior estrago? Assim, um corta o outro, na ameaça da batida com aquele olhar de “não venha, não!”. Um carro velho e barulhento, quando somado a uma direção ofensiva, chegará a qualquer lugar mais depressa que um carro novinho dirigido por um respeitador de normas que esteja atento à segurança do outro. É uma realidade. Ninguém quer seu carro novo batendo num carro velho. Olha esse dono desse carro velho, ele nem se importa com o carro. Se eles se encostarem, o meu prejuízo para deixar o carro novinho como estava será de uns mil reais? Talvez mais? E a lataria dele, toda cagada e amassada, vai continuar cagada e amassada. Virtualmente o prejuízo dele vai ser zero. Melhor deixar passar. Melhor manter distância.

Um “carro pequeno” tenta ultrapassar um ônibus A, invadindo um pouco a pista da contra-mão. Ao mesmo tempo, há um ciclista à direita do mesmo ônibus A. Um outro ônibus B vem em sua própria pista, no sentido oposto. Oh não, o carro pequeno pode não conseguir completar a sua ultrapassagem e há o risco de bater de frente com o ônibus B!

Pela lei: O maior é responsável pelo menor, mesmo se o menor estiver fazendo merda. Ônibus A diminui, Ônibus B também diminui, os dois até páram se for preciso. Ônibus B, enquanto diminui procura abrir algum espaço para carro pequeno, se houver. Carro pequeno ultrapassa, ou, se ainda assim não for seguro, também diminui até parar, se preciso. No caso de todos pararem, ônibus A retoma seu rumo, e carro pequeno segue atrás de ônibus A, aguardando um momento melhor de ultrapassagem.

Na lei do mais forte: Ônibus A mantém. Ônibus B mantém. Carro pequeno diminui bruscamente e desiste da ultrapassagem à força. OU Ônibus A acredita que carro pequeno não consegue frear e cancelar a ultrapassagem de forma segura, e por isso ele mesmo frea, e abre para a direita para salvar o motorista. E derruba o ciclista.

Não tem conversa. Entre bater em um carro que se pôs em risco e fez errado, e derrubar o ciclista à direita, não há dúvidas. Que ciclista? Entra aí não só o medo de morrer, mas o medo de tornar a sua vida um inferno. O dono do carro pode ser, desde um pequeno funcionário no carro da mãe, que é aposentada, até um poderoso advogado, cujo pai é juiz. Se o carro não tiver seguro, a empresa não vai arcar com os custos do impacto sem penalizar o motorista, certo?

O ciclista certamente não é ninguém.

Esse pensamento não chega a acontecer. Não há esse momento de fria reflexão e cálculo em que se decide meter o 10 toneladas em cima de alguém pedalando. Pensa-se em evitar um conflito, um problema e em salvar a vida do motorista do carro. Porque o carro é uma peça no tabuleiro que é considerada automaticamente.

Para pensar no ciclista é preciso parar para pensar.

Com pouca experiência é relativamente fácil prever situações de risco no trânsito. A defesa do ciclista é parar.

Saibam.

Um dia, isso vai mudar.

 

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