Inacreditável

Duas pessoas voltam para casa na madrugada de São Paulo de ontem para hoje. As duas na larga calçada da Avenida Paulista. Um corredor e um senhor. O corredor aproveitou o horário de 5h30 da manhã para sair em disparada, se exercitar, e o senhor resolveu andar de sua casa para comprar pão numa padaria de sua preferência, que abre bem cedinho.

O corredor estava distraído em seus exercícios e desacostumado com a presença de senhores na larga calçada nesta faixa de horário, se esbarrou no senhor. O senhor caiu, se machucou e os seus pães saltaram da sacola, foram parar no bueiro.

Houve um choque, um se machucou e perdeu os pães porque o outro não viu.

O que acontece agora? Na vida real, num roteiro de Woody Allen, na história que você escreveria, como se desenrola o fato seguinte? Duas pessoas, impactos, pequeno estrago. Qual a sequência?

Eu inventei essa história. Mas entre as muitas formas de desenvolver os acontecimentos, a imensa maioria começa com um “perdão, senhor!”. Algum tipo de compensação pelos pães estragados. Uma interrupção na corrida para dar uma mão para que o senhor se levante, e um dar a cara a tapa, para ouvir as reclamações por ter machucado uma outra pessoa num espaço tão amplo.

Não gosto da ideia de ficar reportando acidentes de bicicleta o tempo inteiro, mas esse foi inacreditável. A história acima é inteiramente ficção. Segue a realidade.

Na vida real o corredor estava de carro, o senhor é nada verdade um ciclista na ciclofaixa, os pães perdidos não são pães, mas sim o braço do cara.

É isso: um carro atingiu uma bicicleta num horário sem trânsito e com espaço de sobra de uma forma e violência tal que destruiu a bicicleta e arremessou o ciclista ao chão, arrancando-lhe o braço. O motorista não prestou socorro, o braço ficou preso ao carro, e o gentil senhor parou à beira do rio e jogou o braço da vítima fora.

Havia chance de reimplante.

Não há mais.

Link da matéria original no Portal Terra.

Nos comentários da notícia, algumas pessoas culpam o ciclista. Outras acham que “é para refletir”. Putaquepariu

Nessas horas é muito comum o povo invocar a lei, cagar regra, discutir como é, como deveria ser, como é em outros lugares. Obviamente, pelo código de trânsito brasileiro, o motorista está errado, mesmo se não houvesse ciclofaixa. Mas precisa mesmo? Precisa de uma lei que escreva que passar com uma tonelada em alta velocidade em cima de outra pessoa e arrancar o braço do sujeito e não prestar socorro é errado? Não é uma coisa que daria para simplesmente… saber?

Chorei. Chorei de verdade.

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