discriminação e seus muitos ismos

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Vá de Bike.org – Assédio a ciclistas continua fazendo vítimas nas ruas

Gostei muito da forma como o texto colocou a questão. Muito. Quase fiquei triste por não ter sido eu o autor.

O ponto mais importante é a complexificação da questão. O assunto é grave, mas não é simples, e existem nuances muito difíceis de medir e computar.

Uma história marcante que aconteceu comigo pode ser contada para exemplificar como as vezes é muito difícil interpretar o que exatamente está acontecendo.

Há alguns anos, e eu Vinício, um amigo com quem trabalhei no teatro, estávamos carregando peças enormes de cenário pelo Passeio Público para levar para a casa de uma atriz do grupo, onde o cenário ficaria guardado. Aproveitamos o intervalo de almoço para isso. O cenário era pesado, tinha rodas, mas o chão do Passeio Público é de paralelepípedos, e as rodas são inúteis nesse contexto.

Passamos rumo ao portão que dá acesso ao Largo dos Aflitos, em frente ao estacionamento do Quartel da Polícia Militar. Vini ia na minha frente, eu vinha logo atrás. Um motorista estava tirando o carro do estacionamento, viu Vinício e esperou ele passar. Eu vinha LOGO atrás, mas ele decidiu que eu deveria esperar ele sair para continuar. Não esperava essa decisão por parte do motorista e parei no susto. Nisso, a peça de cenário que eu carregava se desequilibrou e pendeu para frente. Eu fiz força para não deixá-la cair, não caiu, mas encostou no carro do cidadão quando pendeu para frente. Começa aqui o conflito.

Cidadão? Perdão. Era um policial. A peça do cenário encostou no carro dele, um Uno Mille vermelho, novinho, com o papel da concessionária ainda no para-brisa. Riscou. Um ponto branco de aproximadamente meio milímetro (nenhuma figura de linguagem empregada aqui). Uma porta de entrada para a ferrugem. Uma desvalorização enorme se não corrigida, acredito.

O policial – que não estava em serviço – saiu do carro completamente transtornado. Eu ingênuo, ainda tentei encaixar um “não foi nada”. Ele informou que era policial. Eu imediatamente tirei a minha carteira, estava com o cartão do CPF e o RG orginal, saquei o celular, e ofereci tudo a ele. Para anotar ou para ficar. Ele poderia anotar os meus dados, anotar o meu número, que eu me comprometeria a pagar pelo estrago.

– Eu não vou resolver essa situação com você, não. Eu vou resolver com um policial em serviço. Não saia daqui.

Fernando era o nome do policial em serviço que estava por perto. Atendeu ao chamado do colega da corporação e começou a averiguação. Perguntou o que aconteceu, eu comecei a relatar, ele me interrompeu.

– Você está sem camisa? Porquê?
– Era só porque eu estava carregando um-
– Vá botar uma camisa e volte aqui.

Porque a camisa era importante se os documentos estavam… Deixa pra lá. Eu estava carregando um cenário pesado debaixo do sol de Salvador. Tirei a camisa. Pareceu uma decisão acertada no momento. Fui até o Teatro Vila Velha, coloquei uma camisa. Vini fez o mesmo. Voltei. Agora eu poderia contar a história. Contei. O carro saiu, eu não esperava, o cenário balançou, riscou o carro. Eu me comprometo a pagar. Não vou fugir. Não tem problema. Eu trabalho aqui no Vila Velha, estou aqui todo santo dia. Eu só queria resolver a situação. Estava sozinho nessa.

– Você trabalha no Teatro?
– Sim.
– Trabalha mesmo?
– Sim.
– Sua carteira de trabalho está aí?
– Não, está em casa.
– Vamos lá no Teatro, então.

Porquê isso era relevante? Não sei. Fomos até o Teatro. Na época, o administrador era Gustavo. Chamei Gustavo, ele apareceu.

– Esse rapaz trabalha aqui?
– Sim, é funcionário.
– O senhor pode me acompanhar?
– Algum problema?
– Me acompanhe, por gentileza.

Gustavo não se identificou. Não disse o nome ou o cargo. Não ofereceu o CPF. Ou o celular. Ou o RG. Gustavo, você pode imaginar, é branco, cabelo bem cortado (no mínimo uma vez por mês), sem barba, tem pelo menos 1,80m, estava em forma, vestia uma bela camisa de botão, uma calça social distinta, um par de sapatos cor de caramelo que possivelmente combinavam com o cinto. Tem diploma, sabe falar, se portar, um gentleman. Voltamos ao local do incidente. Gustavo analisou o carro riscado. Chegou a esfregar com o dedo para se certificar de que a lataria tinha sido realmente danificada. O soldado Fernando o acompanhou paciente e respeitosamente. O motorista também. Gustavo confirmou todas as informações que eu dei. Gustavo se comprometeu a acompanhar o caso pessoalmente. Bastava seguir a praxe: apresentar o orçamento e eu arcaria com o prejuízo. O policial sequer anotou o telefone do Teatro. Gustavo lhe garantiu que o pessoal no Quartel tinha, que se precisasse era só ligar. O motorista, Mário o nome dele, pediu que eu anotasse no meu celular, o número dele, para saber quando ele ligasse com o orçamento. E a questão estava resolvida.

Carreguei o restante do cenário com Vinício e voltei para trabalhar.

Eu sou mestiço. Minha mãe fez uma árvore genealógica da nossa família com um nível de detalhamento absurdo, não há dúvidas que eu sou fruto de uma miscigenação total. Nenhuma pureza. Mas na Bahia, isso interessa menos, origem não é nada. Minha pele é clara. Na avaliação geral, e para um policial, eu sou branco. Vinício é bastante parecido comigo e a cor de pele é praticamente a mesma. Mas imagine que fôssemos negros. Incontornavelmente negros, como Pelé e Kobe Bryant. Negões. Agora releia a história.

Passa a ser uma história de racismo. Imediatamente. A palavra do negro nada vale. O branco não deu nem o nome e serviu de garantia.

Houve discriminação, ficou explícito um total despreparo para lidar com a situação por parte da polícia, sem um treinamento ou um protocolo claro a ser seguido. Mas não foi porque eu era um negro. E a mesma história poderia ter acontecido com dois rapazes negros.

Então é difícil avaliar. E existem mau entendidos, sim, infelizmente. Como existe racismo, sexismo e homofobia em níveis alarmantes que nos deixam envergonhados. Mas cada caso é um caso, e é um caso complexo, e é difícil avaliar. O que só torna tudo mais chato, problemático e dolorido, no caso de quem sofre esses abusos.

O texto do Vá de Bike denuncia sem simplificar, sem entrar no jogo fácil da condenação automática e violenta. Muito bom, muito bom.

No fim das contas o policial Mário, já de cabeça fria, me ligou. Disse que tinha ficado muito baratinho, que eu não me preocupasse. Não paguei nada.

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Uma resposta para discriminação e seus muitos ismos

  1. Sua irmã. disse:

    Já passei por uma história parecida com a da mocinha do Vá de Bike… estava andando de bici no corredor da vitória, de vestido, e um carro saindo de um dos prédios decidiu de brincadeira continuar com o carro na minha direção, não vinha nenhum carro naquela pista e eu simplesmente desviei, e o motorista falou algo como “Cuidado, gatinha”. Dei sorte.
    Mas, olha, é um mundo muito fodido esse que eu dou sorte de não ser atropelada por ser mulher e sentir calor. De não ser estuprada por ser mulher e precisar sair de casa. Ad infinitum.

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