Acidente aristocrata

Duas postagens no mesmo dia, quem diria.

acidente

A bicicleta depois do acidente

Não saiu no jornal (eu, pelo menos, não achei), mas ontem um ciclista foi atropelado na Avenida Reitor Miguel Calmon. Uma motorista resolveu passar por cima das regras, só um pouquinho, e deu uma roubadinha, fazendo um retorno onde não se pode, e não satisfeita em fazer besteira, ainda não observou quem vinha de lá.

“O carro” não viu o ciclista, o ciclista não viu o carro. O ciclista foi atingido, arremessado ao chão, caiu, ferido.

É incrível que eu tenha escrito sobre o O olhar aristocrata há tão pouco tempo. Aqui está a ausência de senso de igualdade e justiça num exemplo aterradoramente prático.

Numa manobra infratora, derrubo um ciclista, é óbvio que me encontro no erro. E se há igualdade, devo pagar. E sabendo que vou pagar, devo fazer o possível para minimizar o estrago, minimizando assim, a minha pena. É uma situação inapelável de erro.

Mas o que aconteceu depois de derrubar o ciclista? O que acontece agora é muito mais importante do que o que acontece antes. Uma infração é ruim, mas não é o fim do mundo. Não é o colapso da sociedade, não é a objetificação do outro, não é o abandono da consciência. É um acidente. Mas fugir sem prestar socorro é tudo isso. Errei. Alguém se fodeu? Antes ele do que eu.

Antes a morte hipotética (do outro) do que encarar qualquer consequência pelos meus atos. Uma pessoa que pisa no pé e pede desculpas, não minimiza a dor, mas minimiza o estrago. Se repara. Se responsabiliza. Reconhece a igualdade do outro.

Fugir é foda. Até porque ele precisava de ajuda e foi parar no hospital.

O que é este “outro”? Um ser humano? Menos do que isso. Sim, porque o ciclista poderia ter morrido. Talvez fosse até “melhor” porque assim, ninguém saberia quem o matou.

É tudo muito rápido. A decisão de fugir não é refletida, pensada e repensada. Faz-se aquilo que a mente mantém na superfície. Como quando rimos de uma piada e revelamos o que é que achamos engraçado e um pouco de quem somos. Não se reflete por alguns minutos antes de rir. Apenas rimos. Quando em segundos decidimos abandonar a pessoa que acabamos de atropelar, mostramos quem somos. Não o que decidimos naquele momento diante das circunstâncias, mas a nossa reação mais imediata. Quem somos.

O ciclista está vivo e passa bem. A bicicleta está quebrada. Não sei se tem jeito. Ele memorizou a placa do carro. Uma testemunha viu o carro entrar em um prédio. Alguém conhecia alguém que mora neste mesmo prédio e se deu ao trabalho de ir à garagem identificar a placa. E o carro descrito e a placa estavam lá.

Toda a burocracia (polícia técnica, registro de queixa, Detran, etc.) já está em andamento. A pessoa já foi identificada e vai pagar.

Não apenas pelo acidente – consequência de uma infração deliberada – mas pela fuga, também.

Quando algo assim acontece, antes que qualquer pessoa diga, eu já consigo ouvir uma voz que formula: “andar de bicicleta é muito perigoso”. É quase como culpar um transeunte por ter sido atingido por uma bala perdida.

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Uma resposta para Acidente aristocrata

  1. wille disse:

    Se você tiver informações, nos atualize do andamento da queixa. Seria bastante interessante saber que a lei foi aplicada…

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