Feliz 2013 e o olhar aristocrata que eu recebo as vezes

Voltando a escrever em 2013.

Estou terminando de ler Fé em Deus e Pé na Tábua – Ou como e por que o trânsito enlouquece no brasil, de Roberto da Matta com João Gualberto Vasconcellos e Ricardo Pandolfi, de 2010. É uma boa leitura que dá forma a vários pensamentos soltos que tenho enquanto ciclista e participante do trânsito. Uma pena que a forma da escrita seja quase infantil e por vezes irritante, mas o conteúdo é excelente.

Semana passada estava pedalando pelo Rio Vermelho e fui fazer a conversão à esquerda. A rua de destino era de mão dupla, então olhei para os dois lados. Falhei ao não ver que vinha um carro à esquerda, mas estava longe. Dobrei à esquerda, o carro me viu e freou de maneira um pouco brusca porque também não tinha me visto.

Frear bruscamente causa imediato mau humor no nosso motorista médio. Por causa de uma bicicleta deve ser ainda mais irritante. Quando percebi o carro, fiquei logo tranquilo porque vi que ele me viu e que estava parando. Não chegou a ser um incidente, um acontecimento, não foi grave. Mas recebi aquele olhar.

Aquele olhar.

O olhar dizia precisamente: “você está errado, eu poderia ter te matado e a culpa seria sua, cuidado!“. Aquele olhar condescendente de quem me permitiu passar. O olhar de um lorde que do alto da sua generosidade se deu ao trabalho de se incomodar para dar espaço a um mero servo da gleba. Esse olhar. De cima para baixo. De pai autoritário para filho irresponsável. Quase um educador.

“Pô bicho, tá exagerando, foi só um olhar”. Não é um olhar. É o olhar. Pedestres conhecem esse olhar. O pedestre que provoca o freio de um carro recebe esse olhar. “Olha lá, rapaz, você não está no seu devido lugar e a punição poderia ter sido sua morte, e a culpa seria sua”.

Eu odeio esse olhar.

Ele difere muito de quando, caminhando apressado, você se esbarra em uma senhora e faz um olhar de me perdoe! Eu realmente não queria fazer isso, foi uma desatenção.

Eventualmente eu erro, no trânsito. Óbvio. Assim como todos. Mas me considero bastante prudente e cuidadoso. Evito ultrapassagens, minimizo ao máximo qualquer ocorrência de contra-mão, estou totalmente sinalizado e com uma buzina bastante audível, ando na borda da pista garantindo espaço para os carros.

Eventualmente eu forço a convivência e me faço notar. As vezes incomodo um pouquinho. A lei determina que a prioridade é sempre minha, que em qualquer caso de conflito de interesses, o carro, o caminhão, o ônibus ou a moto devem me dar passagem. Mas a lei é aquele instrumento de punição dos outros e não a norma de si mesmo para a imensa maioria das pessoas.

Quando não é o olhar, muitas vezes é a buzina. Que quer dizer, em outro tom, a mesma coisa: “ponha-se no seu lugar!”. A rua é o meu lugar. Os micro-conflitos do trânsito são muito breves, muito rápidos. Não há tempo para réplica e tréplica, dúvida, debate, só há tempo para ação. E as ideias que estão na sua cabeça se manifestam nessa rapidez. São dezenas de micro-conflitos diários, e as pessoas viram bicho (Sr. Volante). O rapaz do carrão (uma Ranger, digamos) percebe que poderia chegar ao seu destino 5 segundos antes – aqueles sagrados 5 segundos – não tivesse que esperar uma oportunidade segura de ultrapassar o ciclista, ou o motociclista, ou qualquer outro, e Ranger que é, barão das rodovias, buzina e mete. Quem quiser ficar que fique e se estrepe.

Para haver democracia, é preciso haver igualdade. Igualdade enquanto valor absoluto é impossível, mas vamos lá, um sentido de igualdade. A igualdade não está no trânsito. Não está no baba. Não está no boteco. A igualdade não está em nosso cotidiano. Um se coloca como superior ao outro. O outro aceita ou paga para ver. Pagar para ver significa ouvir “você sabe com quem está falando?”. Daí entram em jogo a força bruta do carro, da arma, dos contatos no mundo político, a força da grana, do status qu.

A ideia eu poderia ter te matado e a culpa seria sua existe. É uma reedição dessa ideia aqui eu poderia ter te estuprado e a culpa seria sua. Ou eu chamei a polícia porque você parecia um ladrão. Porque isso não é roupa que se use. Porque você estava numa avenida de velocidade. Porque você é negro. Porque você não se previniu de mim. O meu ato é natural. Você estava fora do seu lugar. Nenhuma imprudência que o mais estúpido dos ciclistas cometa é suficiente para a punição imediata com a pena de morte.

Você que usa uma faca, tome todo o cuidado porque este é um instrumento de trabalho, mas é também uma arma. Você que opera uma usina nuclear, siga estritamente a norma, porque além de uma usina, ela é também uma bomba. Você que dirige um carro, um carrão, que é mais pesado, maior e mais poderoso que os outros carros, tome muito, muito cuidado, porque ele é também uma arma. E o choque com pedestres, ciclistas e outros veículos e as suas consequências é responsabilidade sua e nunca da vítima. Você tomou a decisão de sair de casa pilotando um instrumento capaz de matar. Lide com isso. Mesmo se você for filho de… Sei lá, Eike Batista. Isso não te coloca acima da lei. Ou coloca?

O sentido de igualdade não existe. Logo, não há justiça possível. Logo, não há democracia. Nem mais ou menos. Deveríamos deixar de fingir que ela existe e continuar lutando para que ela apareça.

Feliz 2013.

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