Aleluia, Buenos Aires

Seria totalmente injusto comparar Salvador e Buenos Aires.

Comparação não é legal.

Comparações justas são raríssimas. É preciso equilibrar contexto, história, posição lunar, condições de partida e condições de chegada, pH e pressão atmosférica, para que uma comparação seja justa. É um método que deve ser usado com muito rigor e tempo de sobra. É uma coisa para cientistas sérios em busca da verdade e que fazem bem à sociedade perdendo um tempo enorme, para que nós não tenhamos que perdê-lo.

Então não vou comparar Salvador com Buenos Aires.

A comparação em textos curtos frequentemente nos encaminha para uma conclusão, que será, quase sempre, contestável. Não há conclusões, aqui.

Vou apenas relatar que o trânsito que presenciei (não necessariamente como ele é o tempo inteiro) era um trânsito pacífico, ordeiro, estruturado para a convivência entre motos, carros, ônibus, pedestres e bicicletas. As partes da cidade por onde andei tinham sempre calçadas, prédios colados nas calçadas que faziam sombra nas calçadas, muitas árvores, muitos parques, muitas praças, bancos para sentar do lado de fora das lojas e em todo lugar. O resultado disso tudo era muita gente na rua, logo, muito comércio de rua, várias crianças na rua, vários idosos na rua.

O momento mais impressionante e marcante para mim foi uma brincadeira na porta de uma escola. Estavam jogando farinha nos alunos que saiam da escola, alguma brincadeira de final de ano. A porta da escola ficava em frente à uma avenida enorme de 6 pistas. Tinha muita gente, e as crianças correndo para lá e para cá e a multidão foi invadindo a rua, lentamente. Muita gente tirando foto da confusão. Os carros desviaram das pessoas. Ninguém buzinou. Não houve pânico de ser atropelado. Todo mundo entendeu o que estava acontecendo, desviaram daquele “happening” e seguiram sem precisar impôr a sua força através de um carro ou de uma moto. Demonstraram respeito e seguiram em frente. E mais importante, as crianças e os adultos, e sobretudo os fotógrafos, invadiram a rua acreditando que os carros entenderiam o que estava acontecendo. E eles entenderam. Pura magia.

Não, não, não, não concluam nada. As leis, o clima, a topografia, as histórias, o temperamento, a política, as multas, as escolas, tudo é muito diferente. Não há base para dizer: é assim por causa deste elemento X, se aqui tivesse mais X, ia ser igual. Não ia. Não é. Não dá.

A conclusão é que há muito a se fazer em Salvador, e quanto mais cidadãos participarem, melhor. O novo secretário de transporte e urbanismo é um nome que não me anima, pessoalmente: José Carlos Aleluia. Deu uma longa entrevista à Tribuna da Bahia em que cita muitas boas ideias (embora a palavra “bicicleta” ou “ciclovia” não apareçam em lugar nenhum) com destaque para esta frase aqui, sobre a questão da falta de estacionamentos: “Eu sou muito pragmático. Se não tem estacionamento num determinado lugar, não vai de carro. Essa é a solução. A prefeitura não vai criar estacionamento. Estacionamento é um problema do dono do carro com o dono do estacionamento.”

É um começo na “tiuria”. Vamos ver a prática. Por hoje é só.

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Uma resposta para Aleluia, Buenos Aires

  1. wille disse:

    Alguns aspectos que notei quando estive em Buenos Aires:
    1. Tempo de semáforo adequado para pedestres – não precisamos esperar muito, nem correr para atravessar a rua…
    2. Há uma cultura dos motoristas que vão virar à direita num cruzamento de esperar os pedestres que estão atravessando a rua.
    3. Várias ruas do microcentro são apenas para pedestres e algumas também para ciclistas.
    4. Muitas árvores nas ruas.
    5. A ausência de catracas nos ônibus de Buenos Aires já diz bastante sobre as diferenças desta em relação a Salvador e ao Brasil…

    Enfim… uma cidade com o mínimo de condições para a vida humana. Pena que a crise lá está tão brava e que o metrô e os trens estão quase entrando em colapso.

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