Iniciando os outros

Daí que esses dias me liga um cantor famoso de Salvador, Pietro Leal, da famosa banda Pirigulino Babilake. Já tocaram até em Feira de Santana. Esculhambações a parte, Pietro me contou que estava meio cansado de dirigir e pensou em comprar uma bicicleta, se eu podia ajudar. Claro.

Alguém disse a ele que para andar de bicicleta na cidade, o melhor, era dar uma passeada com quem já anda. Alguém disse certíssimo.

Todas as coisas mais importantes Pietro já sabia. Quem já passou 5 minutos conversando com ele, sabe que se numa confusão de carnaval um briguento perguntar “rapaz, cê quer levar um pau na cara, é?”, Pietro certamente responderá, “Porra velho, nem quero. Mas não é porque é seu, não, você é bróder, é porque pau na cara é baixastral pra porra, né, rei?”. Se duvidar viram amigos. Pietro é da paz. E isso é fundamental para andar de bicicleta.

Me perguntou poucas coisas no começo. Fizemos, aquilo que eu considero o circuito EASY de Salvador. Rio Vermelho até o Porto da Barra e voltamos. De 1 a 10, o nível de dificuldade é 2. Só não é mais tranquilo que pedalar no playground.

Peguei uma linda Dahon dobrável emprestada para mim, e ele foi montado na minha (lá ele) bicicleta. Por azar, esse dia o trânsito foi intenso, e a dificuldade foi para 3 ou 4, o que já é MEDIUM, mas ainda está longe do HARD.

O que a bicicleta tem que ter? Buzina ou campainha, sinalização dianteira e traseira, sinalização nos pedais e retrovisor, obrigatoriamente. Capacete não? Capacete não é obrigatório, mas é permitido. Andar na borda, preferencialmente à direita. Ultrapassar carros pela esquerda é absoluta excessão. Contra-mão só quando o custo benefício for 2 milhões para 1 por questões de infra da cidade. A prioridade é da bicicleta em relação ao carro. A prioridade é do pedestre em relação à bicicleta. Mesmo se o pedestre estiver irregular e fazendo bobagem.

Ele já sabia quase tudo e a pedalada foi tranquila. Água de coco pra comemorar a ida, e retorno muito mais tranquilo, já que não em interseções e a gente só parou mesmo, em sinal vermelho.

Foi a primeira pedalada urbana de Pietro, que há muitos anos sabe andar de bicicleta, mas não usava como um meio de transporte.

Foi também minha primeira pedalada numa Dahon dobrável. Elegante, bonita, mais ou menos eficiente e extremamente confortável. Digo mais ou menos eficiente, porque você tem que assumir um lado mais Conduzindo Miss Daisy na sua vida e pedalar numa propaganda de absorvente. O clima é esse. Se quiser acelerar, se é daqueles que acha gostoso pedalar forte, ela pode ser um pouco irritante, porque não rende. Mas para a cidade, pedalar forte é uma exceção que não pertence ao dia-a-dia. Tem mais espaço nessas pedaladas grupais da madrugada.

A minha iniciação foi torta e aventureira, mas indicaria que RIO VERMELHO => PORTO DA BARRA à noite é um trajeto EASY e agradável. Ciclovia da orla de dia, também, EASY. VASCO DA GAMA e CAMPO GRANDE já são trechos MEDIUM, porque a atenção no trânsito tem que ser maior e você tem que aprender a prever o que fazem os carros, que, para quem nunca dirigiu, pode levar um tempo. Avenidas de velocidade em geral, como GARIBALDI, JURACY MAGALHÃES, CENTENÁRIO, ACM, te exigem uma certa confiança. Não mais habilidade, mas mais confiança. Os carros passam rápido, dá mais medo, mas se você proceder como nos trechos MEDIUM, o resultado é o mesmo. Vamos classificar as avenidas grandes como MEDIUM-HARD. Em todos esses lugares há ciclistas. Todo motorista já entende a existência de ciclistas, mesmo os que não se deram conta disso. O Rio Vermelho parece ser mais povoado, mas os bairros populares em geral têm um trânsito de pedal muito numeroso. Daí deixaria para o HARD, esses trechos que são anti-ciclistas. Os viadutos, as ladeiras desertas e sem vida pedestre, a Paralela, a BR-324, até têm ciclistas, mas é sempre uma aventura.

À medida que vai-se avançando, derrubam-se dois mitos que se agitam inconscientes na cabeça dos não-ciclistas. Mito 1: Os motoristas (especialmente os de ônibus) querem te matar. Não querem. Mito 2: É preciso ser jovem, atleta e não tomar refrigerante para aguentar uma pedalada. Balela.

A maioria das pessoas que entra em um carro, entra para andar uns 6 quilômetros e descer. As vezes uns 10. Qualquer sedentário acima do peso encara 5 quilômetros de bicicleta de primeira. Com duas semanas pedalando qualquer um faz 10 sem morrer.

Esses dias vi um senhor de terno e grava na Vitória, pedalando, foi tão engraçado.

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3 respostas para Iniciando os outros

  1. wille disse:

    Qual foi o modelo da Dahon que você pedalou? Não conheço muitas bicicletas, mas sinto que na minha Speed D7 me desgasto bem menos do que pedalando uma bike aro 26″. Só não dá pra enfrentar meio-fio e é necessário mais cuidado com os buracos.

  2. Camilo Fróes disse:

    Não sei o modelo da Dahon, mas não era das menores, era das maiorzinhas.

  3. Eduardo Luedy disse:

    eu tomaria como regra básica (não a ser seguida à risca, porque o trânsito é sempre muito dinâmico e as condições variam muito em função de horário, dia da semana etc etc): evitar as avenidas de val daqui de Salvador. Elas costumam ser avenidas cuja velocidade máxima permitida é de 70 Km por hora e nessas circunstâncias os motorizados tornam-se muito facilmente monstrorizados – não enxergam pedestres e nem ciclistas. Eu costumo pedalar pela Garibaldi, no sentido rio vermelho, mas não recomendo a iniciantes mesmo! Se dá para ir pela avenida oceânica, por que não? Melhor ainda, se dá para ir pelo Jd Apipema, por que não? Perde-se mais tempo, talvez, mas pedala-se mais sossegado, Se for de dia, é mais arborizado inclusive. Enfim, a regra básica é: planeje suas rotas e evite as vias com máxima de 70 por hora.

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