O falso retorno e o momento da manutenção

Sem querer entrar muito nas conjecturas pessoais, tenho sérios problemas de estímulo mantendo um projeto sozinho. O retorno que eu recebo de quem lê – que já não é muita gente – é minúsculo. Sem rotina, com uma vida totalmente montanha-nepalesa (Rússia é para os fracos), não foi surpresa para mim que o desestímulo interrompesse esse projeto. Mas não o apaguei. Nem o apagarei, porque creio que a informação aqui contida é útil, e é um bom arquivo. E pode ser que por algum motivo, ou algum fator estimulante, a coisa engate de novo. Veremos.

Mas já que estou escrevendo, deixa eu escrever.

Meu pneu furou pela primeira vez. Não pela primeira vez na minha história com bicicletas, aqui mesmo narrei outro caso de pneu explodido. Mas com esta bicicleta. A bonitona. Foi engraçado, porque foi um furo totalmente não-ortodoxo, como quase toda a minha experiência com bicicleta.

Na sanha irrefreável de expandir os horizontes, fui a Brotas de bicicleta. Brotas. Adentrei o Vale do Ogunjá, e próximo à EBAL, subi uma ladeira rumo aos Alpes Soteropolitanos. Claro que nada de bom pode vir desta experiência. Brotas, como um todo, TODOS SABEM, não é legal.

Fui trabalhar na gravação e edição de uma música, com um amigo muito legal que tem poucos defeitos (um deles é o local de residência), e no fim do dia ele insistiu que deveríamos comer uma pizza, e que eu não iria de bicicleta. Ele tem um carro grande, a bicicleta cabe dentro – mesmo sem dobrar – e tudo vai.

A resposta do destino por me aventurar onde não se deve foi que a porta dos fundos do carro grande emperrou, não abriu, a bicicleta ficou na sala dele, e ele ficou de consertar a porta no dia seguinte e me entregar a magrela em casa.

No dia seguinte, sem aviso, sem suspense, a bicicleta parada no canto, o pneu traseiro começa a chiar e esvazia completamente. Assim ele narrou-me o acontecido. Não foi o espírito santo. Borracha é um material volátil e muda de volume, etc. Bateu um solzinho na sala, a bicha inchou (literalmente) e o furo que estava ali pra acontecer só precisava de um empurrãozinho, desabrochou. Essa é uma explicação para quem acredita em ciência. A outra é que os espíritos me puniram por ir a Brotas.

5 reais, a câmara estava colada, na oficina aqui perto de casa. Tranquilidade. Mas na verdade meu pneu já está careca. O traseiro muito mais do que o traseiro. Não é porque eu uso mais o freio traseiro – embora eu use mais o freio traseiro – é porque a distribuição de peso é desigual, na bike, ainda mais a minha que tem amortecedor na frente, então a pressão na roda de trás não só é muito maior, como flutua bastante. Quando o amortecedor alivia a barra para a roda dianteira, a traseira é que segura a onda.

Me foi sugerido inverter as rodas. Coloca a careca na frente e coloca a menos gasta no fundo, e vai equalizando o desgaste. Embora faça sentido, creio que vou simplesmente comprar um pneu novo. Talvez me empolgue e compre uma câmara nova também, para não ficar com a remendada. A manutenção de uma bicicleta, dividida pelo ano, não chega a 10% do gasto de manutenção com o carro. Talvez não chegue a 3%. Esse meu amigo do carro grande gastou 40 reais destravando a porta dos fundos, mas antes disso, precisou comprar um pneu e duas jantes novas, trocou recentemente também o extintor, e gastou mais uma boa grana para descobrir de onde vem aquele barulhinho novo que aparece quando o carro balança. Brincando, brincando, nos últimos dois meses, me confidenciou, gastou uns 850 reais.

Vocês sabem o que é 850 reais, né? É uma bicicleta nova.

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7 respostas para O falso retorno e o momento da manutenção

  1. Os Alpes Soteropolitanos e a punição espiritual por ir em Brotas me renderam agora ótimas risadas.

  2. Eve disse:

    Adorei o post, mas como eterna cidadã de Brotas (mesmo exilada na Barra( devo erguer um “Epa!”. Minha querida terra suspensa é, bem verdade, um lugar diferente de Salvador e, como diz uma amigo brotense, É para os fortes. 😀
    Mas quando aceita um novo transeunte pode ser um lugar bastante proveitoso.
    Escreva que leremos.

  3. wille disse:

    A minha em mais de um ano também só furou o pneu uma única vez e de forma não convencional também. Eu estava andando com o pneu um pouco murcho e não tive tempo de desviar de um pequeno buraco. A jante deu uma mordida na câmara e ela esvaziou tão rápido como um balão de aniversário…

    Muita gente só considera o custo do combustível quando pensa no gasto que tem com o carro, porém se colocar na ponta do lápis quanto um carro popular se desvaloriza por ano, mais o custo de impostos e seguro, o gasto mensal pra ter um carro não deve sair por menos de R$ 400. Acrescentando o custo do combustível, estacionamento, lavagem e manutenção esse valor vai pro espaço.

    Keep blogging!

  4. Thiago Maranhão disse:

    Pneus traseiros em bicicletas e motos gastam bem mais rápido, não somente pela distribuição do peso, mas principalmente por ser a roda de tração. No caso do bicicleta você ainda pode economizar e fazer o rodízio, colocar o pneu dianteiro no lugar do traseiro.

    Brotas? Cara eu adoro Brotas, adoro pedalar em Brotas, amo as ladeiras e a Dom João VI com um trânsito que é fácil de equalizar, sem falar que, por morar na Vila Laura, qualquer destino é uma descida, e assim, uma longa subida na volta pra casa. Eu amo ladeiras na verdade. Pedale mais em Brotas e conheça melhor, pedale em todos os cantos possíveis. É uma verdadeira aula de bike. Quando você se acostumar você vai entender.

  5. Camilo Fróes disse:

    Todo blog é movido a interação. Não há outro retorno para mim, nesse projeto, além de ouvir outras ideias, levar patadas, receber e distribuir estímulos verbais e brigar um pouco de vez em quando.

    Como estava parado há um mês, resolvi apimentar brincando com Brotas porque é uma piada que SEMPRE dá certo. Sempre que encontro meu chapa Mauro repito: “Mauro é um cara que está sempre alegre, mesmo morando em Brotas!”, e toda vez dá papo, vira brincadeira, quebra clima e resulta em interação, que é o que dá o fôlego para mim, nesse debate.

    Não se ofendam. Conheço pouco Brotas, porque nunca tive namorada brotense, nem trabalhei em Brotas, nem morei lá. Depois que abriu o boliche do Aeroclube e o cinema do Brotas Center fechou, já não havia motivos para retornar. Mas é só brincadeira.

  6. Adna Novaes disse:

    Camilo, sinto por só ter encontrado o seu blog agora!
    Você escreve muito bem, de um jeito muito irreverente e é quase impossível não se identificar com as suas histórias de ciclista, cidadão, ser pensante! Keep blogging! Por favor!
    Estou, há poucas horas, lendo os seus textos sem parar e pensei comigo mesma, que ironia do destino (diga-se, da internet) colocar o seu blog no meu caminho (na busca do Google), logo agora que comecei a pedalar também.
    Moro em Matatu de Brotas e há três semanas passei a ir de casa para o trabalho (na Av. Garibaldi) de bicicleta, seguindo um trajeto relativamente tranquilo. Ainda não tenho tantas histórias ciclísticas assim, mas espero vivê-las para compartilhá-las aqui com você.

    P.S.: Brotas é um lugar legal de se viver, apesar da super lotação… Rsrs!!! Adorei o texto! Posso dizer Os Textos. Agora deixa eu ler o restante! =)

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