Estar na rua – que perigo!

De volta à escrita, voltei a subir a Ladeira da Barra, esses dias. Fui até a Vitória pegar umas roupas de minha esposa que ficaram na casa de uma amiga.

Ela me disse que uma mochila bastaria.

No meio do caminho a bicicleta implorou por cuidados e manutenção. O passador de marcha das coroas quebrou, deixou de responder, e a lanterna dianteira apagou, sem bateria. Eram 20h40, se não me engano. Cheguei no prédio, me identifiquei, pedi as roupas e era um sacolão de roupas enorme. Duvidei que fosse caber tudo na mochila e de fato não coube. E agora? E agora? Olha a cena: de noite, na calçada, de bermuda, camiseta e chinelos tirando roupas de um sacolão e colocando numa mochila. As roupas até couberam, mas tinham dois pares de sapato, que foram depositados em sacolas de supermercado para irem pendurados no braço, fora da mochila.

Enquanto fazia a minha transferência, uma senhora saiu do prédio, foi até o carro. Hesitou antes do portão e fez uma leitura detalhada da minha pessoa. Não entendeu o que era aquele sujeito com aquele capacete horroroso tirando roupas de um lugar colocando no outro, estaria ela correndo perigo? Seria seguro? O que está acontecendo aqui? Resolvi ajudar: “Boa noite”. Ela não baixou a guarda, desconfiada, foi ao carro sem me responder. Alerta. Manobrou, e mesmo indo embora ainda deu uma última olhada para tentar entender o que diabos estava acontecendo ali que ela não entendia.

Na rua, antes de tudo, está o perigo.

As pessoas acreditam fielmente nisso. É um perigo tão grande que não pode ser enfrentado. Nunca. Apenas evitado. E quando eu digo “na rua”, não é dentro do carro. O carro é “dentro”. É uma extensão da sua casa. O perigo está naquele breve momento de tensão entre o carro e a porta de casa. Aimeudeus. Tudo pode acontecer. Já pensou? JÁ PENSOU?

Não estou dizendo que não existe perigo nenhum na rua. Existe. Eu fui assaltado na Pituba, na Graça, na própria Vitória, no IAPI, na Federação, em Recife… Eu já fui bastante assaltado. E é preciso reagir a este estado de coisas. A questão é: como? A resposta da nossa classe média (e de muitas outras classes médias) é: evitar a rua. Assinar uma TV a cabo, pedir uma pizza pelo telefone e não deixar jamaaaais o entregador subir no prédio, evitar este local perigoso que é a rua.

A rua, no entanto, é um lugar muito grande, para se temer de forma assim tão generalizada. É como ter medo de negros – que tem gente que tem – é muito negro nessa cidade. Seria viver em constante pavor. Que tem gente que vive. Que opta por viver assim.

A postura dos bairros populares é precisamente oposta. No Uruguai, no Vale das Pedrinhas, em Santa Cruz, na Boca do Rio, tem sempre gente na rua. Ocupando os espaços  da rua o tempo inteiro. E isso torna as ruas seguras. Eu gostava muito de morar no Garcia, porque, com um boteco a cada 200 metros, você tem movimento até bem tarde no bairro inteiro, e dá para fazer longos percursos andando a quase qualquer hora. E o perigo surge exatamente onde o movimento cessa. No deserto, sem ninguém para ver ou acudir, cria-se a oportunidade do perigo. Abandonar a rua é torná-la um perigo.

Então o desejo da classe média é esse: eu não ocupo a rua, eu não vou à praça, eu não falo com o meu vizinho, mas exijo que tenha polícia e “segurança” (seja lá o que isso signifique) em todos os lugares para que, quando eu decidir sair, não correr o risco de enfrentar nenhum contratempo. E enquanto isso compartilho no twitter com os meus amigos onde estão as blitz para a gente poder burlar a lei em paz. Essa postura é se colocar fora da equação da cidade. Da cidadania. É querer ser consumidor da cidade e só. “Salvador é uma merda porque não tem show do artista X”, ou porque não tem a loja tal ou serviço Y. Salvador ELES. Esse discurso nunca surge no NÓS Salvador. A Salvador ELES me atende mal, é isso, é aquilo, é não sei o quê mais.

Que merda, hein?

Daí a senhora vai andar 10 metros entre o portão e o carro e fica toda tensa avaliando o que é aquela pessoa ali mexendo em umas roupas. Mesmo com um porteiro ali, do lado dela. Porque, até provar que não, eu sou um perigo.

Andando de bicicleta você está sempre muito mais exposto – além de receber vários olhares desconfiados não apenas de senhorinhas. E você se obriga, aos poucos, a mudar esse padrão: a princípio as pessoas não são um perigo. A princípio, são pessoas. Ponto.

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9 respostas para Estar na rua – que perigo!

  1. O medo e a paranoia é geral e não é só na cidade. Parei o carro para fotografar uns umbuzeiros numa estrada vicinal próxima a um povoado em Iaçu e quando voltei encontrei duas senhoras e um trabalhador na carroceria de uma SUV, parados, apreensivos e com cara de investigadores por verem aquele carro ali parado fora da estrada.

  2. a classe média é um perigo pra sociedade! haha

  3. Perikito disse:

    Ledo engano pensar que as ruas da periferia ou dos bairros populares estão sempre cheias ou movimentadas como as do Garcia. Tá todo mundo com medo, pobre ou rico.

    • Camilo Fróes disse:

      Não busquei imaginar os bairros populares como situações ideais onde os problemas não existem, nem nada nesse sentido. Mas aqui no Vale das Pedrinhas e na Boca do Rio que frequentei por alguns meses tem sempre gente em todo canto pelo menos até 21h, talvez mais. Citei Santa Cruz e Uruguai baseado em conversas recentes com meus amigos. Não é que o medo não exista, mas não se pode comparar o movimento de moradores desses bairros com o deserto do Caminho das Árvores, Itaigara ou Pituba. Existem exceções nesse sentido de ocupação para os dois lados. O Parque Júlio César é até bem ocupado, por exemplo, como existem bairros populares mais esvaziados.

      • Gislaine disse:

        Sim!
        Os bairros populares tem muito movimento nas ruas, sim! Até bem tarde da noite.
        Moro em um bairro super popular e de densidade demográfica altíssima e raramente me sinto insegura ao retornar de ônibus tarde para casa. Exceto em períodos em que grupos rivais de tráfico local estão em rusgas e se enfrentando, tocando terror e medo aos residentes, e exigindo toques de recolher… é, acontece. Mas não é toda hora.
        O que vejo são pessoas ocupando os espaços, ainda que precários, curtindo o máximo que aquele local possa oferecer embalado nos latões de cerveja e espetinhos de churrasco. As inúmeras igrejas evangélicas também são responsáveis por um tráfego humano inacreditável, sobretudo em noites de sábado ou domingo.
        Isso de certa maneira, traz um movimento seguro em horários tardios.
        Eu jamais me arriscaria andar só às 20 horas de domingo no Itaigara ou no Costa Azul, mas me sentiria mais confortável em fazê-lo no mesmo horário se fosse em Pau da Lima, Tancredo Neves ou Itapuã.

  4. Fernando Henrique disse:

    Bom Texto! É visível o medo das pessoas ao andar de noite nas ruas, outro dia só porque eu atravessei a rua pra outra calçada, a mulher que vinha na direção contrária já foi dizendo:”Jesus te abençoe, meu filho”. Apesar de os ônibus rodarem até mais ou menos meia-noite, eu não sinto segurança nenhuma em chegar muito tarde em ksa. Pegar a sessão de 21h no cinema pra depois ir pra ksa de ônibus é uma operação de risco! Meu sonho era que os ônibus rodassem de madrugada.

  5. Paulinho disse:

    Andar de bicicleta me tirou um pouco do medo (pavor) que tenho de sair na rua. Estou descobrindo uma cidade maltratada, mas linda. Não podemos viver dessa maneira. Há a questão da divisão social. A classe média não quer conviver com “gente feia”. Mas esse é outro assunto…

  6. wille disse:

    Belo texto! Essa diferença entre os bairros e a sensação de segurança é bastante perceptível. Outro fator de desertificação das ruas são os muros que não permitem que quem está em casa veja e cuide da segurança de quem passa na rua. E tome-lhe condomínios com área de lazer completa, é o feudalismo 2.0.

  7. Amanda disse:

    Ótimo texto, Camilo! Essa é uma coisa que sempre ouço minha mãe dizer. “Onde estão as crianças brincando na rua até tarde?”, “Onde estão as pessoas na porta de casa, batendo um papo na varanda?” Se bem que hoje não existem mais varandas, existem muros enormes, já não se pode ver a rua… Ela sempre diz que nós “tomássemos conta” do nosso espaço, seja rua, bairro ou cidade, não haveria espaço para tanto medo, e eu concordo.
    Hoje cheguei em casa por volta das 21 horas. Só tinha eu andando sozinha aqui perto. Eu sozinha, não, o medo estava comigo. E alguém havia sido assaltado na minha rua minutos antes de eu chegar. Lendo seu texto percebo que estamos entregando os pontos…

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