Padrões de comportamento

Quando eu era guri, o trânsito era um fenômeno totalmente impressionante e mágico pra mim.

Como é possível que funcione?

Pessoas distraídas, com níveis de destreza diferentes com interesses e temperamentos diferentes, seguindo regras com pouquíssima fiscalização, como é possível que as pessoas consigam efetivamente sair de suas casas e chegar inteiras nos seus destinos todos os dias? Eu já sabia que morria muita gente no trânsito. Minha primeira palmada – eu sou do tempo em que bater em filho era não só OK, como recomendado – foi por ter soltado a mão da babá e atravessado a rua sozinho correndo. Com 5 anos. Palmada totalmente merecida. Ou seja: desde sempre eu sabia que o trânsito era uma “coisa” perigosa. Que era preciso tomar cuidado e olhar para os dois lados, sempre. Mas ainda assim, funciona. Eu sempre estudei em bairros diferentes de onde eu morava, Sempre fui e voltei no carro de alguém, de um pai, de um vizinho, da BTU, as vezes no carro de “Seu” Henrique do transporte escolar. E veja só: funcionava. Funciona. Mesmo com as desfuncionalidades, na maioria dos casos, dá certo.

Vamos ao dia de ontem:

Fui ao Canela pela Vasco da Gama. Antes de chegar na Vasco, tem uma rua que muita gente acha que é a Vasco e pouca gente sabe que é a Conselheiro Pedro Luiz, onde fica o PIOLA. É uma rua com um cruzamento com o finalzinho da Juracy Magalhães e o cruzamento estava duplamente bloqueado. Eu nunca tinha visto nada assim. Quem vinha da Juracy não passava, porque na Pedro Luiz tinha carro atravessado. Quem vinha na Pedro Luiz não passava porque os carros que vinham da Juracy também estavam atravessados. Uma coisa linda. Quantas buzinas ouvi? Nenhuma. Briga? Nada. Paciência de todos. Achei incrível. Um arranhão minúsculo no carro de alguém e ia rolar um estresse asseverado. Ia ter bate-boca. Não ia ficar barato. Mas há um fechamento duplo de cruzamento totalmente surreal e ninguém se manifesta. Guardei esta cena comigo no coração. A impressão que eu tenho é que na maioria das outras capitais haveria buzinaço, os responsáveis seriam identificados e xingados e pensariam 3 vezes antes de fazer isso de novo. Aqui, os tais fechadores de cruzamento devem estar fechando outro cruzamento agora mesmo.

Mais à frente, uma moça num carro popular queria subir a Ladeira do Acupe. Eu estava na Vasco, e continuaria na Vasco, ela estava na Vasco e subiria o Acupe. Mas tinha um ciclista passando. Se fosse um caminhão ela esperava ele passar, né? Mas como era um ciclista ela meteu. Quase colidiu comigo. Vinha falando no celular, tomou um susto, freou de vez e buzinou. Ela tava devagarzinho, mesmo que “me pegasse”, eu vivia. Passado o susto ela não seguiu adiante. Ficou um segundinho parada como se tivesse algo a dizer. Desci da bicicleta e abri os braços, apenas, esperando. Ainda no celular, ela abaixa o vidro e me grita alguma coisa que terminava com “MÊOFILHO!“.

Não entendi nada do que disse a moça, mas coisa boa não foi. Quem termina frase-berro no meio da rua para um desconhecido com “MÊOFILHO!” está rebaixando o seu interlocutor. Algo como “Olha por onde anda, MÊOFILHO!”. Há um “seu idiota” escondido nas entrelinhas dessa frase. Nunca o berro é algo como “Te achei gatinho, me liga depois, MÊOFILHO!”. Ter entendido esse final foi suficiente para saber que não foi um pedido de desculpas. Berrou. Fechou o vidro. Continuou ainda a conversa no celular – um modelo cor-de-rosa – e subiu, finalmente, a Ladeira do Acupe.

Tivesse tido a chance, diria: “você sabe porque você está errada?”. 1 – Ela veio de trás de mim, eu já estava à frente dela, ela teria que esperar fosse um ciclista, uma cadeira de rodas ou um senhor vesgo com um bode. Em qualquer caso que ela chegou depois, ela espera. 2 – o motorista é responsável pelo ciclista. 3 – Em caso de dúvida a preferência é sempre minha. Tem mais outras 6 razões, pelo menos, mas isso já basta.

Os problemas existem. Mas o trânsito funciona. Eu quero dizer: você não sai de carro achando que vai bater. E normalmente não bate. A batida é um acontecimento extraordinário. Então o normal é que funcione. E funciona porque as pessoas podem prever minimamente – mesmo no nosso caos – o que o outro vai fazer. Existe uma padronização das ações. E as pessoas confiam no padrão e se relacionam através dele. E ficam nervosas com as motos porque estas seguem padrões um pouco menos claros e um pouco menos definidos.

E a bicicleta? A bicicleta não tem padrão. Um vai na contramão, o outro vai no meio da rua trocando de faixa, o outro vai pela calçada e fica muito difícil se relacionar com o ciclista. O motorista lá com seu volante não sabe que diabos o ciclista vai fazer, e as vezes vê o ciclista mas não registra. Ou, por ignorância, acha que o ciclista não faz parte do trânsito e não respeita o espaço dele e mete o carro pra subir a Ladeira do Acupe.

Não estou dizendo que a moça tem desculpa pra ter feito o que fez. Tinha alguma coisa no caminho dela. Não interessa. Não se pede meter o carro e esperar que a coisa, seja o que for, vá parar, desviar ou sair voando. Porque um motorista distraído é um potencial homicida. Não se pode esquecer disso. Se eu dormir “no volante” farei mal a mim mesmo. No máximo a mais uma pessoa. Não vou matar ninguém. Não se pode dizer o mesmo de um motorista, infelizmente.

Esta moça ignorou algumas leis de trânsito e está na casa dela achando até agora que está certa. Vai tomar uma cerveja falando como “ciclista é foda, você não sabe o que me aconteceu dia desses” com os amigos. Por isso que é impossível, nesse momento, ser APENAS ciclista. É preciso, de alguma forma, espalhar a palavra.

Tem UMA coisa que eu poderia ter feito que talvez evitasse o susto, que é: sinalizar que eu não vou entrar. Sempre sinalizo que vou entrar antes das curvas. E várias vezes sinalizo que NÃO VOU entrar. Dessa vez não sinalizei, porque não vi a moça. Mas seria o mais seguro. Por hoje é só.

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