Alegria no Capemi

Almoço-reunião no Capemi, ali próximo ao Shopping Iguatemi.

Eu já ligo o meu senso de humor no máximo, me preparando para essas situações porque sei que vem bomba de lá, quando vou a um edifício comercial que nunca fui. 90% de chance de ser destratado.

Cheguei de havaianas, bermuda nova, camisa nova (coincidentemente, Zara de novo), ainda não tinha suado e perguntei se no estacionamento do Capemi tinha um lugar onde eu pudesse amarrar a bicicleta.

A resposta começa com o olhar. É um olhar de “venha cá, meu velho, você tá inventando arte vindo de bicicleta porquê?”. O rapaz que ia se reunir comigo recebeu outro olhar muitíssimo diferente. Ele estava com camisa de botão, calça comprida, sapato de couro e a camisa estava por dentro. Ele foi saudado pelo mesmo funcionário, momentos mais tarde, com um “posso ajudar, doutor?”. Eu não tive direito a saudação e depois de um ‘boa tarde’, perguntei se tinha onde colocar a bicicleta, recebi um “você vai pra onde?” na caixa dos peito.

Minha resposta mental foi: “não te interessa, seu corno, eu fiz uma pergunta simples”. Mas ficou só na minha mente.

Quem é motoboy sabe bem do que eu estou falando. Os funcionários detentores do micro-poder, de um portão, de um balcão, de uma catraca, fazem uma diferenciação muito clara e muito perceptível entre quem é cidadão e quem é empregado. Munido de muitos litros de bom humor, continuei a enfrentar a situação:

– Um amigo marcou comigo no Capemi.
– No Capemi ou no Shopping Capemi?
– Pô velho… Não sei. No restaurante. Nunca vim aqui. Ele falou Capemi.
– Se for no Capemi é lá.

Me passou para o outro estacionamento, do lado. O rapaz do estacionamento do lado também me atendeu no modo ‘sub-gente’, mas foi mais direto: “Não tem. Amarra naquele poste ali”. Amarrei naquele postei ali.

Não quero nem imaginar como seria o tratamento se eu fosse negão.

Acabou que o restaurante era no Shopping Capemi. Meu amigo frequenta o lugar sempre e estaciona em qualquer um dos dois estacionamentos como se fosse uma coisa só (lógico).

Será que a discriminação não está ligada à roupa que você estava usando mais do que pelo fato de você ser ciclista, Camilo? Tem isso também. Mas não são coisas tão distintas. O veículo e a roupa fazem parte do mesmo processo de identificar com quem se está lidando. Uma coisa é chegar num Audi A6 brilhando, outra é chegar num Fiat Prêmio barulhento e bicolor. Os tratamentos diferem brutalmente.

Entendi isso definitivamente quando aluguei um terno caríssimo para ir para uma formatura e os cachorros do Passeio Público, que sempre correram atrás de mim, me cheiraram e me trataram como um lorde. Não é metáfora. Isso realmente aconteceu. Cheiroso e bem vestido, os cachorros começaram a respeitar. A simbologia da apresentação é muito forte. Até os cães fazem a leitura.

Agora, eu vou pedalar de sapato de couro, calça social, camisa listrada de botão por dentro da calça tomando sol na cabeça? Não dá, né? Não fiz isso pra casar, não vou fazer pra sair na rua, francamente.

A cidade joga contra o ciclista. De maneira sutil ou bizarramente agressiva, direta ou indiretamente, a surpresa acorda o despreparo e a mágica acontece.

Recomendo litros, litros de bom humor.

Por hoje é só. No texto que vem: excessos

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Uma resposta para Alegria no Capemi

  1. Alan Alencar disse:

    A vida como ela é. Infelizmente.

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