Um mês depois – contra-mão

Retorno das férias não anunciadas do blog, um mês depois do post anterior.

Não vou fazer promessas para não destruir ainda mais a minha estilhaçada credibilidade. Acumulei histórias e pretendo desenvolver uma a uma. Uma por post. Novas vão continuar acontecendo, é claro. E tenho andado de bicicleta como nunca. Acredito ter atingido um nível de autonomia altíssimo, pois, se antes não saia de casa sem antes planejar cuidadosamente o trajeto – hoje vou fazendo os caminhos por qualquer via, perguntando no caminho e me adaptando às circunstâncias. Não perdi o medo do trânsito, o medo é fundamental. Mas aprendi a lidar com ele e tenho pedalado muito.

Cheguei a pedalar pouco mais de 100 Km em quatro dias, o que, acredito, me fez passar mal no quinto dia.

Vamos começar pelo tema que mais tem me incomodado nos últimos dias: ciclistas. Ciclistas na contra-mão.

Não tenho talento para ficar abanando e sinalizando para o rapaz que saiu na sua bicicleta na contra-mão certo de que está fazendo a coisa mais correta do mundo. Não só é inefetivo, é frustrante e o desgaste é alto. Tenho passado por muitos, muitos ciclistas que andam de qualquer jeito no melhor estilo desinstitucionalizado de Salvador.

Tecnicamente, os ciclistas deveriam ser orientados e/ou fiscalizados pela Transalvador, mas estamos falando de um órgão de uma contra-gestão tão avançada que já é sabido por todos que o trânsito flui melhor quando eles resolvem não trabalhar.

Na prática não há, em qualquer esfera da administração pública, um órgão que assuma a questão do transporte via bicicleta. Estamos à margem da administração, da ação direta do Estado no seu sentido amplo. Nenhum funcionário público se dirige a um ciclista, hoje, sabendo o que fazer. Assim sendo, cabe ao ciclista tomar a iniciativa de se informar com amigos, vizinhos, parentes e com o Código de Trânsito Brasileiro, disponível para download a uma googlada de distância, e usar a lei a seu favor quando for conveniente, sentindo-se livre para cometer todas as infrações possíveis arriscando a própria vida sem nenhum tipo de fiscalização, uma vez que ninguém está ligando, mesmo.

Ou seja: tenho raiva da galera que anda na contra-mão, mas eu entendo. O olhar ‘macro’ entende. A atitude micro, no entanto, é outra. Não me desgasto, não me arrisco: assim que avisto um ciclista vindo em minha direção na contra-mão, em rota de colisão comigo, faço o que posso para colar na calçada e obrigar ele, o contraventor, a invadir mais a rua – e se expôr mais aos automóveis – para passar por mim. Quase sempre a manobra é sentida e me devolvem um olhar de “ah, seu escroto”. Por duas vezes o sujeito ficou com medo de invadir a rua e parou na minha frente, me forçando a parar também. Das duas vezes permaneci calado. Um diálogo foi algo assim:

– Foi mal parar, velho, é que não dava pra passar!
– Eu sei.  É porque você tá na contra-mão. Contra-mão é esparro.
– É mermo – sorriso amarelo.

O outro foi assado:

– Vai passar?
– Pode passar.
Recebi de resposta uma cara feia. Horrenda.

Esses dois vão pensar a respeito de andar na contra-mão.

Vejam bem, não quer dizer que eles não estão errados. Todos vocês andando na contra-mão onde dá para andar na mão estão completamente errados, estão expondo outros ciclistas a risco e se expondo a risco desnecessário, dando mau exemplo e fazendo merda. Passem a andar na mão e deixem a contra-mão para aquele caso de extrema necessidade em rua pouco movimentada. Andar na mão é mais rápido, mais tranquilo, mais seguro e é a lei. Andar na contra-mão nas avenidas (como todo mundo faz aqui no Rio Vermelho) é idiotice. Eu apenas entendo porque isso acontece, mas continuo achando um porre e esta é a minha reação para colaborar com a evolução da vida em sociedade. Por hoje é só.

Da próxima vez falo sobre pedalar na Pituba.

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6 respostas para Um mês depois – contra-mão

  1. wille disse:

    Em Feira de Santana, também tenho visto muitos ciclistas na contra-mão. Me arrisco a dizer que pelo menos metade dos ciclistas que vejo, andam na contra-mão. Tenho adotado a mesma estratégia que você: ficar mais próximo da calçada.

    Um dia desses num cruzamento com a avenida mais movimentada da cidade, quase colido com um ciclista que atravessou na minha frente na contra-mão. Faltou muito pouco para a colisão. Postarei essa semana um texto sobre como é pedalar em Feira, por enquanto, fique com um vídeo sobre um paraíso das bicicletas no Brasil: Ubatuba.
    http://wille.blog.br/2012/09/bikeuba-a-cidade-das-bicicletas/

  2. Camilo Fróes disse:

    Muito bom o vídeo! Vou repostar ele no blog, Ok?

  3. Claudia Viana disse:

    quero dar minha opinião aqui porque também detesto essa coisa de andar na contramão…pedalo bastante aqui em Lauro de Freitas e as vezes meu marido me acompanha algumas vezes.. Acontece que ele tem essa mania de andar pela contramaão e quer que eu o acompanhe…mas eu não faço isso e ele fica resmungando que a visibilidade é melhor, é mais seguro…essas coisas…mas eu nao concordo e me sinto muito mais a vontade como ja venho praticando mesmo..é uma novela isso pra nós kkkk acho até engraçado depois porque ele termina se enrolando em algumas entradas de rua. desvios e fica pra trás muitas vezes…termino esperando ele na maior gozação…uma hora ele vai mudar, entender que é melhor nao andar pela contramão…um abraço!

    • Camilo Fróes disse:

      Um argumento a se usar, além do que você mesma já experimentou, de que é mais prática e mais seguro na MÃO, é dizer que é contra a lei andar na contra-mão. Claro que ninguém vai fiscalizar e penalizar seu marido, porque não se faz isso na Bahia (ainda), mas a multa pra bicicleta é apreender o veículo e levar ao DETRAN, e você só pode reavê-lo pagando a multa. Coisa séria! Boa sorte =)

    • wille disse:

      Pra mim, o melhor argumento pra não andar na contramão é que nossa maior batalha enquanto ciclistas é termos nosso espaço no trânsito respeitado. Se queremos que os carros respeitem as leis de trânsito e, por consequência, nos respeite, temos que fazer nossa parte e respeitar as leis também. Se andamos na contramão, damos um péssimo exemplo e, em qualquer situação de conflito, estaremos sempre errados.

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