13 de agosto

Querido diário,

Já dei uma entrevista para o jornal, já respondi a trabalho de faculdade e participei de umas duas ou três outras pesquisas sobre o fato de ser ciclista urbano.

Toda e qualquer pesquisa, falada ou escrita, será tendenciosa. A forma compromete o conteúdo. Sempre. A questão é tentar fazer com que estes efeitos colaterais sejam minimizados. Nunca serão eliminados. As que passaram por mim, no entanto, foram bastante tendenciosas rumo a um pensamento do qual eu discordo frontalmente. A ideia defendida é: o uso da bicicleta como solução para o problema de trânsito de Salvador.

Acho isso uma loucura. Quem já sobrevoou Salvador à noite viu que é diferente de sobrevoar quase qualquer outra metrópole. As outras grandes cidades parecem um imagem de SimCity, parecem uma cidade em miniatura, parecem um brinquedinho. Salvador, não. Salvador parece um formigueiro. Um amontoado de luzes sem muita ordem. A cidade tem crescimentos espasmódicos e desordenados, só tem uma opção de transporte de massa que é o ônibus, que é o mais caro e mais ineficiente do Brasil, que funciona por um período de tempo limitado, o que concentra mais ainda a demanda. Mesmo as licenças de táxis são poucas para o tamanho da cidade. É uma cidade que nega, sempre que pode, a vida pedestre. A calçada é o lugar onde tudo pode. Pode banca, pode ambulante, pode lixo, pode carro, mesa de boteco, tudo.

Neste contexto temos descontos de impostos para a venda de automóveis, consórcios em que se pode dividir a compra de um carro em até 120 vezes – a universalização do direito à dívida é uma realidade – e uma forte ideologia reforçada por jornais, Estado e “intelectuais” de que é impossível viver sem carro nesta cidade.

Digamos que 5 mil pessoas hoje destruam os seus carros. Não vendam, não doem, não guardem. Destruam. Queimem, passem um rolo compressor em cima. E passem a usar bicicleta no lugar. Vamos supor que isso aconteça amanhã. O trânsito vai melhorar BASTANTE em alguns pontos críticos. Digam o que quiserem, 5 mil carros são MUITOS carros.

O trânsito ia melhorar.

Por 2 semanas.

Isso porque mesmo sem o desaparecimento súbito de 5 mil automóveis, vende-se, na Bahia, cerca de 12 mil carros por mês. Em muito pouco tempo ia ser como se nunca tivesse acontecido.

Bicicleta não resolve Salvador. Muda a SUA vida. A minha. As vidas particulares de alguns. Opte pela bicicleta se isso for melhor para você. Não o faça como um ato de desprendimento para resolver a sua cidade, porque não resolve.

O trânsito é um “organismo” complexo. Precisamos de opções. Metrô; mais e melhores ônibus; O direito a ser pedestre; Retomada do transporte por trem; Mais táxis; Teleporte; Semáforos inteligentes; Agentes de trânsito inteligentes. Educação para o trânsito. E Ciclovias e ciclofaixas, tudo junto. Tudo ao mesmo tempo. Bicicleta não pode ser vendido como uma solução para a cidade, porque não é. Não é mesmo.

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2 respostas para 13 de agosto

  1. wille disse:

    Por mais que nós gostamos de Bicicleta, a realidade é que a cidade é inviável sem um transporte público decente. Bicicleta tem um papel importante e necessita ter seu espaço, mas o sistema de transporte público é algo ainda mais importante.

  2. É isso mesmo. Salvador não tem sistema de transporte público, tem ônibus.

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