Mas você pega carona, né?

Quando falo que sempre optei por viver sem carro desde sempre, procuro evitar colocar as coisas num tom de “sinta-se culpado por ter um carro, eu vivo sem um e você deveria fazer o mesmo”. Não é fácil estar completamente fora desse tom. E mesmo com isso em mente, a sua forma de falar é só metade do processo de comunicação. É difícil que as pessoas não comecem de alguma forma a defender as suas próprias escolhas, mesmo que eu não esteja desejando impôr minhas ideias num formato de catequese. O mundo das ideias invisíveis em conflito.

Uma das defesas mais clássicas é: “você vive sem carro, mas também pega muita carona com quem tem carro, não é?”. É. “Ah…!”. Abrindo as portinholas dessa ideia encontram-se coisas interessantes como: “Então é importante que alguém como EU tenha carro para que alguém como VOCÊ possa fazer as suas escolhas”. Sim. Isso pode ser entendido como “legal, legal, você não pode me criticar afinal existe uma relação de dependência direta”, sim, o que é uma leitura improdutiva, porém comum, mas eu prefiro entender como um “você está pensando o transporte como uma fenômeno coletivo.” É um exercício razoavelmente complexo se a gente olhar de perto.

Embora todo o discurso sobre nossas escolhas nos seja colocado como uma questão individual e particular, que carreira escolher, onde morar, o que vestir, como se qualificar e finalmente, como se locomover, sob um olhar mais crítico vai ficando claro que as escolhas não são tantas, nem estão tão acessíveis. Que grande parte das escolhas “individuais”, se refletem em comportamentos de massa e questões da vida em sociedade. Nós, pessoas, somos máquinas de copiar. Sotaque, jeito de andar, de se alimentar, de se divertir, de exercer poder nas pequenas coisas. Os hábitos muitas vezes vão se construindo de maneira irrefletida, e em muitas outras vezes o discurso racional surge a posteriori para reforçar e dar consistência a uma “escolha” que foi feita de maneira inconsciente. Torcer para o Vitória, gostar de beterraba, tomar Coca-Cola depois do almoço do fim de semana, agradecer a Deus – acreditando ou não – botar o braço pra fora quando está dirigindo, são pequenos hábitos que vão surgindo. Muitas vezes (e ainda assim nem sempre) escolher entre GVT ou NET é uma escolha racional e refletida. Mas a maioria dos costumes que vão se impregnando em nós e definindo quem somos, simplesmente vão chegando.

As escolhas individuais são negociadas com o todo. Com a família, com os transeuntes, com as autoridades e com as próprias maluquices que a gente vai criando dentro da cabeça. A gente se veste pensando se a roupa é adequada para a ocasião, escolhe as palavras de acordo com o ouvinte, etc. As escolhas individuais, os “casos isolados”, as questões íntimas e pessoais, todas elas, todas têm contextos e o peso da força invisível daqueles que nos cercam. Talvez tenha soado determinista demais mas vejam: não somos o fruto automático do nosso meio, mas somos o resultado da constante negociação com o nosso meio. E com os orixás.

Como já escrevi antes, o trânsito não é uma questão de foro íntimo e particular. É uma questão do coletivo. O trânsito é exemplo completo. As escolhas individuais afetam a todos. Diretamente.  Não perceber isso é ser parte de um problema sem se dar conta. E como também já arranhei teorizar em outros escritos, o trânsito está em contato com tudo. Um trânsito mais funcional abre portas para que uma miríade de aspectos da nossa convivência na cidade seja também mais funcional.

Não que dar carona seja uma obrigação, mas é uma coisa boa que se pode fazer pelo coletivo sem esse tom “parasita-hospedeiro”. Quem dá carona também se beneficia. É como ajudar uma senhora a atravessar a rua ou ligar pra Embasa ao avistar um cano estourado numa rua qualquer. A fraternidade é vermelha. A vida real não é individual. A lógica das escolhas individuais, dos pensamentos individuais é a lógica do consumo, as pessoas que repetem esse mantra estão te vendendo coisas e/ou serviços. Essa lógica tem limites claros. Ou deveria ter. Em alguns casos até mesmo sua liberdade de consumo está acabando. Quem quiser beber Heineken no Carnaval vai ter que suar.

Dar carona é legal e faz bem a quem dá e a quem recebe. Num cenário utópico em que TODO mundo dá carona o tempo inteiro, teríamos um trânsito muito, muito mais otimizado, e uma vida melhor para o conjunto das pessoas da cidade. Quem não quer, isso?

Então minha sugestão é essa: se possível tente sair sempre 10 minutos mais cedo. E dê carona. Ninguém perde.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Desaforo

Parece improvável, mas só agora, com quase dois anos de bicicleta, rodando pra cima e pra baixo, alguém se deu à liberdade de me dizer um desaforo gratuito numa ação de opressão direta à minha escolha de me locomover de bicicleta.

Minha meta era chegar ao Teatro Vila Velha para assistir Troilus e Créssida, espetáculo-mostra resultado do Curso Livre da Escola de Teatro da UFBA. Optei seguir pelo confuso trânsito da Barra e subir a minha ladeira preferida. No caminho, perto do pé da Ladeira da Barra, um ônibus parou no ponto, e eu imaginei que houvesse espaço para passar pela direita, entre o ônibus e a calçada. Eu não contava com a vala irregular que avançou sobre a pista e tirou o meu espaço. Não dava pra passar. Parei, portanto, ao lado do ônibus. Entre o coletivo e a calçada de pedestres. O jeito era esperar o ônibus sair e seguir atrás dele. Situação normal e tranquila.

Ouvi alguém dizer “depois se machuca e não sabe o que foi”, dito mais ou menos ao vento. Não imaginei que fosse comigo, mas depois quando o sujeito repetiu a mesma frase, antes que ele terminasse, estabeleci contato visual e ele terminou de dizer a frase olhando pra mim e eu olhando pra ele.

Depois se machuca e não sabe o que foi

Quem se machuca?

Fica andando assim, aí se machuca e não sabe o que foi.

Você tá machucado? Eu não estou. Eu não me machuco não, velho.

Um camarada meu caiu assim mesmo, passando de ônibus, se machucou todo.

Então dê conselho ao seu camarada. Eu estou na lei, fazendo tudo certo.

O ônibus saiu, eu saí atrás. Quem me conhece sabe que nos 5 minutos seguintes pensei em mil outras respostas para dar ao sujeito. Algumas didáticas, outras ácidas, a maioria envolvendo palavrões.

Me senti alvo de uma frase do tipo: “depois é estuprada e não sabe o que foi”. Fui pré-culpabilizado de um acidente que ainda não aconteceu, porque fiz a escolha errada de sair de bicicleta e ME colocar em risco. Foi isso, na verdade, que ele me disse. Que eu sou o culpado do que quer que venha a acontecer comigo, por andar de bicicleta. E aconteceu, por acaso, que eu soube como responder na hora – o que normalmente não acontece. Normalmente eu penso na resposta perfeita 20 minutos depois do momento apropriado. A resposta poderia ter sido melhor, mas ainda assim, foi uma vitória.

Só pra lembrar que ainda falta muito.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Ciclovia ilegal de Ilhéus

Normalmente este blog não reproduz notícias, ou experiências que não sejam minhas, mas esse caso vale a pena.

Vejam esta notícia.

Meu comentário é que: É óbvio que a ciclovia é ilegal. É óbvio que a expectativa dos ativistas não era de fato criar uma ciclovia que fosse imediatamente aceita pelo poder público.

O fim aqui era justamente pressionar a prefeitura, apontar que existe demanda para este tipo de equipamento e que se quer prioridade na introdução deste. Missão cumprida.

Governos, quando querem fazer uma coisa rápido, eventualmente conseguem. Uma reforma inteira no bairro da Barra seria um bom exemplo. Alguns estádios também são exemplo.

A ciclovia em Ilhéus claramente não é prioridade. E é disso que se trata a ação. Gerar uma notícia, gerar um incômodo, efetivar um cutucão. Um bom gestor, um bom secretário, saberia aproveitar essa pressão, prometeria uma ciclovia para dentro em breve e cumpriria essa promessa. Um prefeito e um secretário assim ganhariam crédito com a população, gastariam muito pouco com a implementação desta medida e serviriam ao público de fato, mostrando que é possível um diálogo na democracia. Se o canal estivesse aberto – ou se se abrisse a partir de então – é muito pouco provável que novas ações “anárquicas” como essa se repetissem. Seria uma ação inteligente do ponto de vista pragmático, eleitoreiro e maquiaveliano.

Ao olharmos com cuidado para as declarações do secretário Isaac Albagli, no entanto, poderemos notar posturas muito diferentes e, no meu entendimento, politicamente burras. Sua gritante desatenção à questão da bicicleta enquanto veículo urbano possível é, para mim, o mais importante. Se alguém tentar usar a ciclofaixa ilegal, esta pessoa estará em conformidade com a lei que já existe e já deveria ser aplicada no município de Ilhéus. A ciclofaixa – que segundo a notícia do Ilhéus 24h é parte de um projeto pensado e planejado por um especialista, embora falte detalhes nesta parte do texto – não expande a área da pista que já é de uso prioritário da bicicleta em qualquer via urbana do país de acordo com o Código – que é federal. Um metro à borda da pista é do ciclista. Não precisa de ciclofaixa para isso, e quem “acreditar” na ciclofaixa não vai imediamente correr risco de morrer, como sugere o secretário. Fica claro que embora tenha assumido o discurso da moda “bicicleta é legal, já estamos pensando nisso e estudando para fazer no futuro”, o secretário ainda não estudou nada e repete chavões sem ter lido o código de trânsito ou entendido o funcionamento da bicicleta nas cidades. Não é uma irresponsabilidade permitir ciclistas na ponte. Até porque já é permitido. Não é um risco andar na pista de rolamento de acordo com as regras. É possível fazer de forma segura e pelo visto está claro que os ativistas de Ilhéus já o fazem e resolveram tomar uma atitude.

Uma ciclofaixa não concede permissão ao ciclista. Ela apenas exclui o espaço para o carro. É bem diferente, e o secretário demonstra desconhecimento ao aplicar seu terrorismo-senso-comum na resposta à imprensa.

Mas daí, diante da provocação, o que é mais importante? Dialogar ou reprimir? Mostrar força ou eficiência? O problema de dialogar, é que torna o diálogo possível. E se um conseguir dialogar, de repente todo mundo pode querer se expressar. E aí, seria o quê? O caos? Não sei. Talvez seria a democracia. A resposta é imediata para a repressão, mas não para a solução. Vamos localizá-los, identificá-los e reprimí-los tão logo for possível. Mas vamos tornar o uso da bicicleta mais viável, quando? A notícia não diz.

Parece que é muito mais importante um governo forte, que não possa ser desafiado, do que um governo disponível para o diálogo. Governos democráticos devem ser desafiados. E devem saber responder de forma inteligente aos desafios. Assim poderiam desenterrar ou ressuscitar uma palavra esquecida da nossa política: credibilidade.

Quando se diz “não se pode apoiar nem estimular este tipo de voluntarismo” soa como “não se pode provocar o governo para fora da caixinha. Nos deixem ser inoperantes em paz!”.

Parabéns, Ilhéus. Salvador podia aprender com isso sugerindo implementações urgentes de ciclovias úteis na nossa cidade. Temos algumas. A maioria, no entanto inútil.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

O terror tarda mas não falha

Chegou!

Estava achando estranhíssimo que as histórias de terror sobre as bicicletas do Itaú não tinham chegado ainda. Mas chegaram. Estão finalmente ocupando redes sociais e se infiltrando nas conversas de Natal, nos encontros familiares, nas histórias terríveis de prontos-socorros, o horror do trânsito é novamente tema de interesse para a nossa sociedade. Parecem um pouco as histórias dos perigos da escada rolante. E sob que viés? A partir de qual perspectiva?

“É um absurdo que disponinibilizem bicicletas sem a devida informação sobre como transitar!”, “é muito perigoso, para quem nunca andou, sair andando de bicicleta”, “andar de bicicleta é muito perigoso”.

Normalmente o sujeito das frases é o ciclista. Ou a bicicleta. Que está normalmente colocando a si mesmo em risco se expondo a “competir” por espaço com os carros. Um velho discurso renovado com um patrocínio que foi feito pra você. Discursos que parecem um pouco com outros interessantes sobre a menina que vestiu uma saia curta demais e aí… O que ela esperava que acontecesse?

Só para deixar tudo mais legal, pela primeira vez colidi com um carro “de passeio”, esses dias. Foi chegando na Barra, o semáforo tinha acabado de ficar verde para nós, veículos, e os carros retomavam o deslocamento. Sem sinalizar – ou sinalizando tarde demais, porque eu não vi – um carro branco não muito caro virou à direita quando eu seguia em frente. O retrovisor encostou no meu braço, e logo depois a quina dianteira, logo acima do farol dianteiro direito, bateu em minha perna, jogando a bicicleta um pouco para a direita. Foi quando o motorista percebeu e parou. Não perdi o equilíbrio, não caí. Ouvi um grito. Não entendi de novo do que se tratava.

Em um segundo e meio de reflexão pensei: estou atrasado. O motorista certamente achará que está certo. Eu estou de cabeça quente e dificilmente vou conseguir usar os meus melhores argumentos da melhor forma. Não aconteceu nada comigo. O susto já vai ser suficiente para ele pensar no assunto.

Decidi seguir meu caminho sem nem olhar para trás. Não sei se foi a melhor decisão.

Mas se eu tivesse ficado e se fosse possível travar diálogo com o motorista eu explicaria a ele o seguinte. Antes de mais nada eu estava fazendo tudo em pleno acordo com a lei, da melhor maneira, como faço em 99% dos casos em que estou pedalando. À direita, no “bordo da pista de rolamento”, com uma sinalização adequada, buzina, e estava, inclusive, de capacete (que a lei não obriga, mas enfim, estava lá). Como ele estava à direita da pista, não achou que seria necessário checar o retrovisor direito. Como ele não estava sinalizando que viraria à direita, não senti a necessidade de buzinar para alertar a minha passagem (sim, a preferência é minha, também). Simplesmente passei. Pelo posicionamento e ausência de sinalização dele, ele seguiria em frente e nada teria acontecido. Se algo tivesse me acontecido seria, também, obrigação dele prestar auxílio para que eu fosse atendido.

O sujeito deste acidente é o motorista. Ele, certamente acostumado a lidar apenas com carros, não me viu. Tampouco sinalizou. Eu não me coloquei em risco. Ele me colocou em risco. Nós temos uma quantidade aberrante de péssimos motoristas. Que se permitem ser péssimos motoristas porque os órgãos fiscalizadores fazem também um péssimo trabalho. Veja como (quase) todo mundo faz tudo direitinho na hora de embarcar num avião. Porque se fizer errado é punido ou sequer embarca. Porque o sistema é de fato rígido. Porque pode pôr centenas de pessoas em risco. E é preciso ser levado a sério.

Trânsito nas cidades e estradas também. Igualzinho.

Então eu não vou ser abestalhado de achar que é uma questão “do brasileiro” (eu leio fóruns sobre ciclistas do mundo todo, essas questões estão em todo lugar), ou uma questão do “motorista baiano”. Como se na nossa cultura, tão forte quanto o dendê e a capoeira regional, estivesse o fato de ser mau motorista. Não é. É tão somente uma questão de seriedade do poder público. Rigor na aplicação da fiscalização e aplicação das leis. Apenas. Foi assim que começamos a usar cinto de segurança (campanha séria de médio prazo e fiscalização) foi assim que deixamos de fumar em locais fechados (campanha séria de médio prazo e fiscalização), e foi por falta desse rigor que voltamos a furar sinal vermelho loucamente a qualquer hora do dia ou da noite.

O perigo sempre vai existir.

Como dirige um motorista que acabou de aprender? No limite da velocidade, na Paralela, fazendo meia-embreagem na Av. Princesa Isabel? Ou começa andando com cautela e cuidado nas vias mais tranquilas até adquirir confiança e segurança e entendimento do funcionamento real do trânsito e do automóvel? Porque um novo ciclista faria diferente? E, em fazendo diferente, como isso pode ser responsabilidade de qualquer outra pessoa que não do próprio ciclista?

Está certo que o site do Bike Salvador poderia ter um resumo das regras mais importantes, como “não é permitido pedalar nas calçadas”, “não é permitido andar pela contra-mão”, etc., mas isso não tira a responsabilidade de quem usa. Porque alguém que não sabe como funciona um aparelho qualquer vai usá-lo sem se informar do seu uso devido? Furadeira, microondas, cortador de grama, bota na internet procura a forma adequada de usar, pergunta a quem sabe. O cidadão é um bebê?

E por fim, houvesse qualquer fiscalização, não seria preciso sequer ter essa conversa. Em qualquer país que adota de fato uma política pública voltada para a bicicleta – e não apenas medidas pontuais desarticuladas, como é no Brasil – o departamento de trânsito sabe quais são as regras do uso de bicicleta na via pública e advertirá aquele que fizer errado. Bastaria. Mas a Transalvador sabe? Não sabe. E se soubesse aplicaria? Tenho sérias dúvidas. Porque essa “nova onda’ da bicicleta é, como nosso asfalto, uma camada superficial de faz-de-contas. E falhará a médio prazo por conta da superficialidade. Assim como o asfalto.

Quando eu comecei a andar de bicicleta, eu procurei me informar sobre como as coisas funcionavam. Antes. Não consigo entender porque alguém faria diferente. E como isso pode ser usado para responsabilizar as pessoas que “não distribuiram a informação”.

Resumindo: Na imensa maioria dos casos não é o ciclista que se arrisca, é o motorista que o ameaça. É sobre o motorista que devemos tratar. Algum nível de risco está em qualquer lugar, usando qualquer meio de transporte, de qualquer lugar para qualquer lugar. Acidentes acontecem. Riscos podem ser minimizados. Se informe.

Feliz Natal de novo.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A vida imita Didi Mocó

Esses dias saí para pedalar na companhia de meu irmão e o tempo estava fechado. Evito pedalar na chuva, opto por qualquer outro meio. Mas não estava chovendo ainda e Salvador não permite previsões. Não são umas nuvens escuras no céu que vão dar a garantia de que realmente haverá chuva. É muito imprevisível. Arrisquei, não choveu.

Perto do destino, um compromisso familiar, encontrei uma ladeira fundamentalmente desumana para se subir de bicicleta e resolvi testar a marcha mais leve de todas para ver se dava resultado. Deu certo. Só não subi a colina toda pedalando com medo de dar uma cambalhota para trás, tamanha a inclinação, mas se ao subir eu ganhsse um pacote de bolacha recheada, com certeza teria dado um jeito. Subi andando.

Mas vamos ao Didi Mocó. Na volta, peguei chuva. Na chuva a minha buzina elétrica começou a apresentar um defeito: tocava sozinha. Péeeééééeeée! Aí eu puxava o botão pra fora, dava um tapa nela, e ela parava. Mas em minuto ela voltava a apitar. Comicamente nos piores momentos. Parei no sinal vermelho, o sinal verde abriu e a buzina, sozinha, ‘pééeeéeéeée’ como se eu estivesse dando pressa aos carros à frente. Ou quando eu diminui para a senhora que atravessava na faixa de guarda-chuva, e a buzina ‘pééeeéeéeée’… Não fui eu, foi a buzina, mas quem acredita? A moça reagiu “Ah, viado!”. Ganhei “vai, seu corno!” em outro momento, também.

Cheguei em casa enxuguei a bicicleta e a buzina ‘pééeeéeéeée’. Com uma pequena chave de fenda tirei ela da bicicleta e tentei abrir, sem sucesso. ‘pééeeéeéeée’. Passei uns ‘pééeeéeéeée’ 3 minutos tentando ‘pééeeéeéeée’ e comecei a ficar maluco. Tive que aceitar a decisão de comprar outra buzina, porque, se eu não conseguia abrir, teria que martelar. E o fiz. A bicha se abriu espatifada no chão. E ali, em pedaços, juro: ‘p-p-pééeeéeé-éeeee…’. Cortei os fios, separei as peças e joguei fora. Acabou. Acabou!

Ridículo uma buzina não aguentar chuva. Vou ver se acho uma melhor.

Feliz Natal pra vocês.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

De parar o trânsito

Andei parando o trânsito. Por breves momentos. E foi interessante como num mesmo dia, rolaram interrupções bastante diferentes porém com significados próximos uns dos outros.

Como pedestre, não gosto de fazer um carro parar para eu atravessar, se eu não estiver no meu pleno direito. Não gosto de negociar. Nem de correr. Eu sei que havendo ou não faixa, a prioridade é minha. Mas defendo a ideia da convivência e, se estou longe de um semáforo ou uma faixa, espero por uma oportunidade com bastante folga, antes de atravessar. Digo isso porque muita gente atravessa e sinaliza para os carros pararem ou diminuirem no meio da rua para que o pedestre passe. É muito raro que eu esteja presente numa situação dessa, seja a pé ou empurrando a bicicleta. Evito ter que negociar com o motorista.

Mas vamos aos fatos.

É comum estar à direita de um ônibus, e aproxima-se um ponto. O movimento natural do ônibus é se aproximar o máximo da calçada onde está o ponto e não deixar espaço para o ciclista. É totalmente compreensível, uma vez que ele visa conforto ao usuário que vai descer ou subir no coletivo. Quando eu vejo que haverá disputa por espaço, cedo. É assim que o fraco vence. Parei. Dessa vez, no entanto, o motorista do ônibus resolveu parar antes do ponto, para me dar passagem para continuar. Mas eu já tinha parado. E ficamos os dois parados por alguns instantes sinalizando para o outro passar na frente. Encerrei o impasse passando primeiro.

Uma única vez, em 2 anos de pedalada, um motorista de ônibus me colocou em risco. E ainda assim, é possível que ele não tenha me visto. Pode ser que estivesse pouco se lixando, também. Não sei. Mas esse tipo de situação é bem mais comum do que a fantasia do ônibus que não se importa. Com carro a relação é uma, com bicicleta é outra. E isso vale para todas as relações. A relação carro x carro é bem diferente da relação carro x bicicleta.

Daí, na mesma pedalada, chegando em casa, vem um ciclista na contra mão de frente pra mim. De longe, ele colou na calçada me obrigando a ocupar mais espaço da pista. Fiz o mesmo. Colei na calçada e olhei pra ele esperando ele desviar para o meio da pista. Na velocidade que estava, ele ainda tentou se desviar pela calçada. Parei. Ele parou também. Sorriu sem saber bem o que dizer, nem como se portar. Não sei se ficou chateado, constrangido, ou se não entendeu nada. De qualquer forma, ele não tinha uma resposta pronta para aquele conflito, e foi embora resmungando baixinho alguma coisa que não deu realmente para entender o que era. Não identifiquei nem se foi mais um “foi mal”, ou uma reclamação.

Por fim, na segunda saída do dia, como normalmente faço, principalmente em grandes avenidas, o ônibus parou no ponto, e como nesse caso não havia disputa pelo espaço – ele chegou primeiro – imediatamente parei atrás dele. Não tinha visto um ciclista que vinha atrás de mim que não esperava que eu parasse atrás do ônibus, e quase colidiu comigo. Teve que parar de vez. O ônibus ia parando e ele ia cortando para a esquerda para ultrapassá-lo, mas no cálculo dele, eu continuaria indo pra frente na mesma velocidade, ou para ultrapassar pela esquerda ou pela direita. Pela direita não dava, porque tinha bastante gente sinalizando para subir naquele ônibus, e haveria a possibilidade de choque com essas pessoas. Pela esquerda, evito. Quase nunca faço. Estar à esquerda de um ônibus é uma excelente forma de não poder usar a minha manobra de segurança preferida: parar. E portanto, correr riscos mais complicados de calcular.

No fim, é isso: evito a disputa, evito o conflito. Se há uma indefinição, paro. Seria ótimo se atitudes como essa se generalizassem e o movimento do ciclista ficasse mais previsível. A previsibilidade é um grande fator de segurança no trânsito.

Enquanto esse dia não chega, para se salvar, é só parar.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Mais laranjas e sobre como informar

Ontem passei por 2 pessoas em bicicletas do Itaú, que andavam pela calçada do Rio Vermelho. Uma calçada estreitíssima que mal dá pra passar duas pessoas ao mesmo tempo. Na direção oposta à dos carros.

Passei, claro, andando no fluxo dos carros, na pista, do jeito certo, seguro e dentro da lei. Evito encarar o ciclista infrator. Evito constranger desconhecidos em casos como esse por vários motivos. 1) Porque eu não sou autoridade, e isso aumenta em muito a chance de eu ser plenamente ignorado ou hostilizado de graça. 2) Porque não é efetivo. A pessoa não quer ouvir. Prefiro dedicar essa energia a escrever o blog. Quem vem aqui, veio porque quis, continuou lendo depois da terceira linha porque quis, e certamente estará mais aberto ao que eu estou colocando.

Se fosse uma atitude porre, porém efetiva, talvez eu fizesse.

Uma coisa que é chatíssima e eu AMO fazer, é flagrar alguém jogando lixo no chão e, no campo de visão do abestalhado, pegar o lixo no chão e jogar numa lixeira. Ou no caso de não haver lixeira por perto, simplesmente andar com o lixo alheio até a próxima oportunidade. Acredito que nesse caso funciona, porque todo mundo já sabe que jogar lixo no chão é uma merda. Pode não ter dimensão exata de quão ruim é (é MUITO ruim). Mas ao ser flagrado, é muito raro que algum cara-de-pau ainda se sinta no direito. Nunca vi acontecer. E já fiz isso umas 30 vezes, pelo menos. É, talvez, a minha chatice preferida da vida.

No caso da bicicleta é mais complexo. As pessoas acham que estão certas. As pessoas acham que se fizerem diferente vão morrer. As pessoas não estão interessadas em se deixar guiar por um desconhecido cujo primeira interação na vida é dizer: “você está fazendo merda”. Ninguém está disposto a considerar que esse desconhecido possa estar certo. E mesmo que esteja, poucas pessoas estarão abertas a dar o braço a torcer a um chato no meio da rua – mesmo que mudem de ideia dias depois. A leitura do infrator na maioria das vezes vai ser: “Quem é você pra me corrigir, e você ainda tá falando MERDA!”.

Que é exatamente o que eu penso quando vem alguém na contra-mão e grita comigo “é pra andar na contra-mão, idiota!” (já aconteceu umas 4 vezes).

Não disse nada aos novos ciclistas, andando pela calçada contra o fluxo. Se eles continuarem a andar de bicicleta, certamente vão acabar se informando em algum lugar. O salitre vai começar a comer o Itaú – como já está acontecendo – e eles, se se adequaram à ideia, podem comprar uma bicicleta. E se isso acontecer vão encontrar vários contextos em que o assunto é bicicleta e a questão da norma, do correto, do seguro, vai surgir.

Mais foco na informação sobre como andar de bicicleta na cidade, não faria mal a ninguém, também.

Nota | Publicado em por | 2 Comentários